Examinaremos os critérios que dizem respeito ao texto obter boa recepção pelos leitores: gramática, concisão, criatividade e convencimento. Vamos examinar esses elementos detidamente ao longo de nosso texto.

1. Seu texto com o uso adequado da gramática
O uso das normas de nossa língua é extremamente importante para que o seu leitor tenha clareza do texto. Entendemos que a gramática é um sistema de sinais escritos os quais se coordenam para que tenham sentido em sua forma mais plena e adequada ao entendimento de todos os falantes da língua portuguesa. Portanto, dentro das suas próprias regras, a gramática tem um sentido universal de uso, pois deve servir para comunicar ideias e sentimentos, atrelada a consciência de quem faz bom uso dela.
Um texto, tal como sua etimologia nos apresenta, um “tecido” de elementos da linguagem escrita, é formado por frases (palavras que formam um sentido pleno com um ponto final) parágrafos (a expressão de uma ideia formada pela reunião de frases, as quais convergem para essa mesma ideia). A reunião de parágrafos deve trazer uma consistência ao texto para que ele seja lido com clareza e entendimento por qualquer leitor com instrução mediana.
Examinaremos um aspecto bem importante de uma frase com sentido pleno: sua estrutura gramatical. Toda a frase precisa de três elementos essenciais dentro de um texto: Sujeito (a voz que é anunciada), verbo (a ação dessa voz) e um predicado (a qualidade da ação).
O exemplo mais comum de frase pode ser elencado de forma simples: “O dia está bonito”. E podemos fazer perguntas para entender a frase de forma a decompor suas unidades. “Quem faz ou recebe a ação?” (é um artigo masculino e um substantivo: o dia). “Qual ação do dia?” (ele é um estado no tempo presente: está). “Qual é a qualidade desse estado?” (é um adjetivo: bonito). Ao decompor essa frase entendemos sua função e seu significado fica assim desnudado.
A próxima unidade dentro do texto é chamada de parágrafo. Costuma vir com uma frase que já indique ou resuma a ideia que será trabalhada ao longo de suas ideias. Não devem ser usadas muitas ideias em um parágrafo, de forma a não trazer confusão. Elas devem ser trabalhadas em não mais do que quatro ou cinco frases, tendo em vista que dependerão da complexidade da ideia apresentada. Veremos, abaixo, um exemplo simplificado:
Eu dormi muito mal noite passada. Essas semanas tem sido muito difíceis, pois o trabalho me absorve muito. A situação piora durante o dia, pois meu chefe ainda me cobra a entrega de relatórios extensos. Para ele é uma grande prioridade na empresa que essas entregas sejam realizadas com qualidade impecável. Precisarei entregar os relatórios com antecedência.
O que podemos compreender desse parágrafo que dá coesão às suas ideias? A primeira frase já precisa enunciar o problema ou a ideia que será debatida de modo sintético. A segunda frase explica as razões da primeira frase. A terceira frase precisa necessariamente ser mais específica para que possamos enxergar o desenvolvimento das duas primeiras.
Nesse texto, a quarta frase apresenta uma solicitação muito precisa, a qual aparece na demanda do chefe da empresa. E a quinta frase apresenta por fim uma tentativa de resolução do conflito pelo sujeito, o qual está na primeira pessoa (eu dormi mal). Uma vez que o texto é escrito na primeira pessoa ele precisa continuar inteiramente nessa pessoa, caso contrário trará impropriedade gramatical a qual culmina pela confusão.
2. O seu texto conciso
A concisão é extremamente importante para que não sejam utilizadas ideias muito mais complexas do que a capacidade de entendimento do seu leitor. Ao escrever um texto precisamos saber o que colocar nele para tanto transmitir uma ideia com clareza quanto um sentimento sobre determinado aspecto. Se levamos a linguagem utilizada no texto para aspectos muito abstratos, dificultamos a capacidade de inteligibilidade e de transmissão dessas ideias ao nosso leitor.
O exemplo abaixo dá uma ideia de como as ideias podem se tornar tão abstratas a ponto de beirarem a confusão. Vejamos juntos o exemplo extraído do texto do filósofo Martin Heidegger, chamado Seminários de Zolikon:
Kant escreve: “Evidentemente ‘ser’ não é um predicado real [real], isto é, o conceito de algo que pode ser adicionado ao conceito de uma coisa. É simplesmente a posição de uma coisa ou de certas determinações em si.”
Real [r] em Kant não tem nada a ver com real [wirklich] ou irreal [unwirklich], mas de acordo com sua origem a partir de res, significa relativo à coisa, o que pode ser encontrado na coisa. Por exemplo, os predicados reais [r] de uma tabela são: redondo, sólida, pesada, etc., se a mesa está realmente lá ou apenas representado.
Pelo contrário, o ser não é nada que possa ser localizado como algo real [r] em uma mesa, nem mesmo quando alguém o desmonta completamente. (seminário de 24 e 28 de janeiro de 1964 na casa de Medard Boss)
Devido à dificuldade do tema escolhido, um problema por demais filosófico, acerca do termo ser e sua metodologia filosófica para entende-lo, Heidegger desenvolveu uma hermenêutica própria. Essa hermenêutica ainda é considerada altamente metafórica e de difícil compreensão mesmo para filósofos com muitos anos de estudo. Isso é resultado das dificuldades dos termos trazerem clareza ao leitor que não conhece suas chaves interpretativas de sua obra, embora também haja uma desnecessária hermetização de toda a linguagem em seus textos.
O texto é simplesmente difícil de entendimento por um estilo criado pelo autor. A confusão gerada é tamanha a ponto de nós nos sentirmos completamente frustrados com qualquer chave interpretativa coerente em seus apontamentos filosóficos. Essa frustração costuma ser o maior fechamento para que um leitor possa desenvolver sua escrita, pois não o instiga a seguir um caminho coerente junto ao seu leitor. O leitor gera um sentimento de ignorância crônica, o qual o faz por vezes de desistir de sua escrita.
O oposto dessa sensação é a clareza argumentativa e sua concisão. A noção de uma ideia ser suficientemente clara para não precisarmos de um labirinto de palavras vagas para preencher linhas. O sentido de que a ideia comunica é na maioria das vezes o melhor possível para o texto ser generoso com seu leitor. Chamamos de texto clássico a todo o texto que se utiliza das regras da gramática com concisão para atingir uma comunicação não apenas informativa como elegante. Vejamos o seguinte excerto abaixo:
Um aspirante a escritor poderia ser perdoado por pensar que aprender a escrever é como enfrentar um percurso de obstáculos num campo de treinamento, com um sargento berrando em seu ouvido. Em vez disso, por que não encarar esse aprendizado como algo prazeroso, como cozinhar ou fotografar?
Aperfeiçoar a própria competência num ofício é programa para uma vida, e os erros fazem parte do jogo. Embora a busca por aperfeiçoamento possa ser alimentada por lições e aprimorada pela prática, tem que ser estimulada antes de mais nada pelo prazer da leitura dos mestres e pelo desejo de alcançar a excelência deles. (Steven Pinker em Guia de Escrita)
O que podemos depreender do estilo de Pinker ao escrever? Esse é um excelente exemplo de um parágrafo que fala da importância de um aprendizado acerca da atividade da escrita. Ele além de ser bem útil para o propósito de nosso texto nesse blog, também possui a relevância de mostrar com imagens muito simples e até bem-humoradas a relação entre escrita e prazer com uma elegância formidável.
O autor demonstra assim a imbricação de ideias de maneira a despertar em seu leitor uma leveza e entendimento genuínos. Isso porque Pinker é conciso em suas ideias sem ser pretensioso ou excessivamente alusivo, desejando que façamos parte de seu caminho com alegria e clareza.
3. O seu texto mais criativo
Um dos elementos mais importantes em um texto é a capacidade de fazermos uso das ideias com criatividade. Para tanto, precisamos olhar um pouco mais a fundo o que significa a palavra criatividade, de modo a desmistificar seu uso e indicar um modo de utilizá-la prática o suficiente para trazer elegância ao texto.
Ser criativo em um texto é poder usar elementos atrativos que tragam um efeito estético tal como a beleza. Por vezes temos dificuldade de entender a beleza, pois não a reconhecemos ou julgamos que por ela ser um valor pode ser relativizado. Esse é um dos maiores enganos que cometemos, pois justamente ao lermos algo que nos toca sentimos que aprendemos de fato uma lição importante. Se usamos as palavras com beleza suficiente para auxiliar na exposição de uma ideia, então temos o melhor indicativo de que estamos tornando esse texto muito bom para ser lido.
Abaixo, temos um breve excerto do poema “Uma didática da invenção”, do poeta goiano Manuel de Barros, encontrado em O livro das ingnorãças:
As coisas que não tem nome são mais pronunciadas por crianças.
O excerto é um bom exemplo de embelezamento da escrita contido na forma da poesia. A poesia enquanto gênero literário está relacionada a transmissão de ideias por meio da memorização. Portanto, antigamente as pessoas cantavam versos com a finalidade de memoriza-los mais facilmente.
O tom de embelezamento utilizado por Manuel de Barros é justamente para enfatizar a ideia de que as crianças se expressam melhor sendo elas mesmas sem o uso das palavras, mas com o uso ostensivo das emoções, naquilo que entendemos como a linguagem do carinho.
O autor trouxe uma forma paradoxal de exposição, com a utilização da ideia que todos temos de que justamente as crianças alcançam mais profundamente essas emoções que na linguagem do adulto por vezes são deixadas de lado.
Vejamos agora o excerto extraído da crônica de Marta Medeiros, “Fizeram a gente acreditar”:
Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável.
O parágrafo trouxe a criatividade de uma maneira muito mais simples do que estamos acostumados a pensar em nosso cotidiano. Isso porque a crônica é um gênero literário, cuja referência é o próprio cotidiano e nossas percepções de sua passagem em nossa vida. A autora estabelece com a metáfora das duas metades da laranja, a ideia de que esquecemos que somos um ser humano inteiro.
Essa construção nos leva a pensar que não apenas podemos esquecer de quem somos para nós mesmos, com nossos gostos e hábitos, mas também acerca de nossas necessidades, as quais por vezes entram em conflito com as necessidades da outra pessoa de nosso convívio. Uma simples metáfora pode ser usada para nos conectar a elementos que podem fazer todas as pessoas pensarem, isto é, se sentirem tocadas na sua intimidade e daí se conectarem com o texto.
4. Quando seu texto convence seu leitor
Por que precisamos convencer nosso leitor de que a ideia que estamos tratando é relevante? Esse aspecto passa por vezes desapercebido na maior parte das pessoas que começam a escrever um texto. O elemento do convencimento pode parecer por vezes pretensioso, mas é justamente sua necessidade que transmite uma ideia, por mais absurda que seus elementos possam transmitir.
O convencimento de uma ideia pode nos fazer crer no que costumeiramente não cremos na realidade ordinária. Esse horizonte precisa de estar contido em um bom texto, pois o seu leitor também pode se sentir instigado a mudar de opinião ou ao menos a leva-la em consideração.
Tão logo começamos a pensar sobre os elementos básicos da persuasão chegamos a três dos quais observamos como indispensáveis para a boa realização da retórica textual dos argumentos: sentimento (o que em nossa particularidade estamos inclinados a nos posicionar), racionalidade (as alegações racionais que consubstanciam certa ideia) e costume (o argumento que toca a algo que fazemos por vezes sem pensar exaustivamente, porém, tomam sentido pelas repetições de nosso cotidiano). Abaixo, veremos como cada argumentação pode ser explorada:
A ideia de que o texto é uma opinião ao tomarmos um posicionamento por meio de nossos sentimentos. Isso porque apenas a mera ideia de opinião não necessidade de fatos ou elementos de realidade que possam ser tangidos. Se dizemos: “prefiro chocolate a pudim”, estamos apenas expressando nossa opinião sem necessidade de demais explicações. Contudo, na condição de convencer nosso leitor, levamos em consideração as qualidades que lhe fazem preferir o chocolate ao pudim, como por exemplo: “sentir o cacau desmanchar-se na boca e ao final sentir sua consistência doce e leitosa.” Essa primeira referência já é interessante, pois é descritiva de uma sensação.
Contudo, é muito raso o convencimento apenas pelo sentimento. Desse modo, partirmos para uma nova ideia a partir da racionalidade, a qual elenca e organiza pontos que cientistas se detiveram para organizarem assim a realidade. O raciocínio científico se baseia, entre outras formulações, na ideia de causa e efeito: “O que será que provoca a sensação de prazer ao comer um chocolate?” É aqui a tarefa de aprofundamento acerca do que estamos tentando demonstrar. “Será possível demonstrar algum aspecto de um gosto?”
Precisamos de ser muito objetivos quando se trata de um assunto a ser demonstrado e algum dado torna-se deveras necessário ser do nosso conhecimento: “Os cientistas encontraram um aminoácido chamado de triptofano no chocolate. Ele é o responsável pela produção de serotonina no cérebro.” Logo, o argumento está balizado com uma explicação muito boa para a sensação de relaxamento e prazer provocada pelo chocolate.
Finalmente, o argumento acerca de nossos costumes precisa de ser elencado na série por nós proposta para o convencimento de nosso leitor. “Em uma sociedade baseada em relações contratualista e focada no trabalho, o prazer costuma ser negligenciado, por vezes.” O chocolate como base material para trazer um alívio em momentos de tensão ou mesmo para aumentar a energia durante o trabalho. “Comer chocolate é um excelente estimulante para momentos em que estamos nos sentindo mais cansados tanto durante quanto ao final de uma jornada de trabalho.
Comer o chocolate de maneira comedida pode ser uma excelente forma de enfrentar pressões decorrentes de atividades estressantes. Talvez por isso encontremos tanto chocolates nos hospitais e necrotérios, para aliviarem a tensão provocada em momentos mais intensos de estresse.” E podemos usar ainda um argumento acerca de sua harmonização com outros alimentos, tal como o café: “Hoje na gastronomia sabemos dos princípios da harmonização na culinária, na qual a gordura do chocolate combina com o sabor amargo e levemente ácido do café.”
É importante frisar o quanto essa associação torna o texto unido às percepções corriqueiras que temos, as quais nem sempre estamos atentos a elas com a devida proporção que podem tomar em nosso cotidiano. Essa frase também mostra quanto o cotidiano é repleto de situações interessantes de serem pensadas e escritas.
Essas foram as 4 contribuições para guiarem uma escrita qualificada de um texto dissertativo e autoral. Vocês estão convidados a praticarem a escrita em nossa consultoria. Basta entrarem em contato conosco e conhecerem nosso trabalho.
Referências:
Aristóteles. Retórica. Trad. Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2011.
Evanildo Bechara. Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
Marta Medeiros. “Fizeram a gente acreditar”.
Manoel de Barros. Obras completas.
Carlos Nougué. A arte de escrever bem na língua portuguesa. São Paulo: É Realizações, 2023.
Autor: Estevan Ketzer