Estevan de Negreiros Ketzer  |  Psicólogo Clínico CRP 07/19032

Como desenvolver melhor sua aprendizagem em 3 passos

A inteligência pode ser desenvolvida, ampliada, quando a motivação para aprender rompe a base de uma simples passividade para a criatividade.

Estevan de Negreiros Ketzer

Psicólogo Clínico (PUCRS). Doutor em Letras (PUCRS). Pós-doutor em Ciências da Religião pelo Labô – Laboratório de Política, Comportamento e Mídia / Fundação São Paulo/PUC-SP.

Introdução

A aprendizagem é um dos processos mais significativos na vida de todas as pessoas. Para aprender são necessárias algumas etapas, cuja função pode ser melhorada com a finalidade de aumentar substancialmente a qualidade do que se aprende e como incorporar de forma genuína nossa inteligência nela. Nós veremos as seguintes dimensões da aprendizagem: motivação, ambiente facilitador, delimitação do escopo de domínio.

1 – Aprendizagem unida à motivação

A motivação é uma das formas mais importantes para aprender. Ninguém pode realmente querer aprender se não se sentir suficientemente motivado. Somente com uma genuína vontade em aprender se elaboram as questões acerca do que se deseja conhecer. “Como isso ocorre durante esse processo?”, “O que eu preciso para realizar tal tarefa, caso eu tente?” Não pode haver uma educação adequada sem que eu me veja dentro do problema que empreendo na tentativa de realizar a aprendizagem.

Hoje em dia em nossas salas de aula é muito comum os alunos entrarem quietos e saírem calados das salas de aula. Isso é muito ruim. Os alunos estão ali, o professor os interroga sobre o conhecimento, e eles se eximem de dar uma resposta. Inclusive, aqueles que gostam de interagir são por vezes vistos com inveja pelos colegas. “Ele está querendo ser melhor do que nós!” Essa atitude daninha em como nossas relações nucleares se estabelecem é um motivo de ruína para toda a inclinação à verdadeira aprendizagem (GATTO, 2019).

O aluno que anseia aprender deve olhar para si e se conectar com o conhecimento, de maneira subjetiva, para que possa entender os elementos objetivos que o perfazem. O alcance do objetivo passa por um elemento subjetivo, isto é, o aluno com sua própria inteligência demonstra um real interesse pelo objeto de seu aprendizado. Portanto, a inteligência pode ser desenvolvida, ampliada, quando a motivação para aprender rompe a base de uma simples passividade. Isso não quer dizer que a passividade não seja um aprendizado adequado ao objeto, embora a curiosidade possa despertar maior interesse por parte do aluno, promovendo assim a complexidade do objeto e, inclusive, o desenvolvimento lento e gradual, de algo inédito acerca da investigação empreendida.

2 – A aprendizagem em um ambiente facilitador

A aprendizagem precisa de um ambiente facilitador. Um local adequado, tranquilo, com pessoas também interessadas em aprender, uma biblioteca com livros, ou mesmo uma boa internet da qual se possa ter artigos disponíveis em diferentes plataformas (Scielo, Google Acadêmico, Scopus, Web of Science, JSTOR, entre outras). Não menos importante, talvez mais importante do que as condições acima mencionadas, seja um bom professor. Vamos examinar um pouco melhor o papel facilitador do professor para a aprendizagem.

A figura do professor tem sido muito subestimada pelo autodidatismo. Não há problema no autodidatismo, contanto que o aluno tenha uma base adequada para poder construir seu próprio processo de aprendizagem sobre um determinado tema. Para tanto, um professor que conheça muito a área de pesquisa, como aquele conhecimento faz relações com um campo muito específico e, aparentemente, não vislumbrado pela experiência do senso comum. Esse tipo de professor é de uma importância enorme para uma visão tanto ampla, quanto específica da área.

Na antiguidade, Plutarco, menciona o professor como um agricultor, pois ele semeia uma boa semente (o aluno) em um bom solo (o conhecimento) para depois esperar ver os resultados com ajuda da água na medida certa (seus conselhos para o aluno) (JAEGER, 2001). De forma alguma há qualquer passividade nesse processo. Pelo contrário, todos estão muito ativos, trocando entendimentos e desentendimentos acerca da aprendizagem ali estabelecida.

O professor, por sua vez, também de ir aos poucos proporcionando ao aluno uma maior complexidade de seus ensinamentos. “Agora vamos abordar o conceito de paralaxe cognitiva” ou “Vamos passar para essa metodologia”. Os conceitos devem ser transmitidos com vista a um maior vocabulário do aluno, o que amplia seu pensamento e a rede de interações possíveis com o que ele já conhece. Da mesma forma, uma metodologia só pode ser passada quando o aluno já possui capacidade de interpretar teorias, coleta de dados e interpretação de resultados obtidos. O uso de exemplos também ajuda muito na elaboração de planos de aula, assim como pequenos exercícios para o aluno estimular sua imaginação em dadas circunstâncias.

3 – A aprendizagem diante à delimitação do escopo de domínio

A aprendizagem tem de ser realizada dentro de um domínio específico. Ninguém aprende as coisas por equivalência, ainda que nossa imaginação e memória possam fazer uso de certas analogias, algumas relações só são estabelecidas quando se compreende o real peso seja conceitual, metodológico ou mesmo a envergadura da sua extensão e influência em áreas adjacentes.

A delimitação de um domínio é, como se diz, algo de profunda influência na forma em que a aprendizagem se dá. O domínio é como um pequeno grão de areia quando começamos seu estudo. Por essa razão, se inicia com pequenos textos introdutório antes de partirmos para textos mais complexos. Depois de um bom tempo discutindo os meandros desses textos, seja com relatos empíricos, seja com vocabulário ali contido, se passa para a prática supervisionada. Hoje em dia a aprendizagem nas universidades se dá pela prática dos estágios, um pequeno período de experiência em um campo específico, cujo atuação do aluno é delimitada, embora não se perca a supervisão, tanto do local de estágio quando da instituição acadêmica.

Em todas as áreas de conhecimento tanto a teoria quanto a prática não se esgotam. Há um antigo ditado que diz: “teoria sem prática é inútil, prática sem teoria é cega”. Esse ditado é muito relevante para nós, pois indica que uma boa prática profissional exige que a aprendizagem continue aflorando e despertando campos cada vez maiores. O bom aluno vai se tornando professor de seu campo. Ele encontrar jeitos específicos de acessar e transmitir a si mesmo sua aprendizagem lhe diz. Esse caráter investigativo constante é uma marca da boa transmissão do conhecimento e deve ser vislumbrada como exemplo a ser seguido para uma aprendizagem revigorada.

Conclusão

Em nosso breve texto, nós discorremos sobre os usos da aprendizagem e em como ela pode ser de extrema importância para os alunos e também para os professores repensarem seus métodos de ensino. Quando olhamos em retrospecto o processo para adquirir conhecimento nos damos conta do quanto não sabemos. Esse elemento deve servir para gerar humildade em nós, mas também um procedimento para aprendermos a enfrentar as nossas limitações, sejam cognitivas ou emocionais (COSENZA & GUERRA, 2011). Ao enfrentar tais dificuldades o aluno se sente encorajado e seguro para ser ele mesmo e daí partir para as contribuições que pode realizar por si mesmo junto a outros grandes pesquisadores da área.

Referências:

ANGROSINO, Michael. Etnografia e Observação Participante. Tradução de José Fonseca. Porto Alegre: Artmed, 2009.

COSENZA, Ramon & GUERRA, Leonor. Neurociência e Educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011.

FLICK, Uwe. Introdução à Pesquisa Qualitativa. Tradução de Joice Elias Costa. Porto Alegre: Artmed, 2008.

GATTO, John Taylor. Emburrecimento Programado: O Currículo Oculto da Escolarização Obrigatória. Tradução de Leonardo Araujo. São Paulo: Kírion, 2019.

JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. Tradução de Artur M. Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

LATOUR, Bruno. Ciência em Ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. Tradução de Ivone C. Benedetti. São Paulo: Ed. Unesp, 2011.

KOZINETS, Robert. Netnografia: realizando pesquisa etnográfica online. Tradução de Daniel Bueno. Porto Alegre: Penso, 2014.

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