Falaremos sobre as questões que norteiam uma boa tradução. Uma antiga piadinha que se trazia para os tradutores era em relação a suas grandes traições (traduttore, traditore) da mensagem do texto da língua que se intentava traduzir. Portanto, ao traduzir um texto deve-se ter em mente que se está buscando uma versão que dê conta dos aspectos próprios de uma língua, mas vamos ver os momentos em que essa tarefa se torna difícil. Essas questões serão trazidas nas seções por nós desenvolvidas.

Tradutor, traidor
Essa famosa expressão advinda do italiano já nos traz algumas questões de conflito quando estamos transformando ideias de uma forma de expressão para outra forma de expressão. Cada língua vem acompanhada de um pensamento específico e de um jeito em que a população nativa encontrou de nomear as coisas que entremeiam suas situações.
Podemos ver os ingleses como frios e distantes, enquanto interpretamos os italianos como muito emocionais. Ao fazermos isso descaracterizamos os casos específicos de encontrar ingleses emocionais e italianos frios com seus sentimentos. Entretanto, se temos essas ideias pré-estabelecidas em nossas mentes deve haver algum motivo intrínseco não aparente, cujo enorme número de variedades individuais não é explicado diretamente.
Ao analisar com cuidado as línguas e a forma em que os povos fazem uso dela podemos ver certas características que se cristalizam em ambas. Talvez a expressão italiana io te prego, eu imploro em português, tenha mais relação com a forma muito gesticulada dos italianos expressarem seus fonemas do que o termo I beg you do austero e pomposo inglês britânico.
Da mesma forma que a expressão I concern, eu me preocupo, em inglês pode dar certa ideia tipicamente racional de preocupação em sua justa medida, enquanto mi preoccupo, do italiano, não parece ser tão efetivamente importante quanto a emulsão de um jato de alegria com uma festa pública em Roma.
Nas situações expostas acima temos o registro de situações em que tanto a racionalidade quanto a emocionalidade afetam as línguas em suas expressões mais corriqueiras e diárias. Talvez não prestemos atenção a isso, mas vejam como duas pessoas que não se conhecem podem expressar cumprimentos quando fazem um breve reconhecimento de suas necessidades: “Tudo bem, como vai?”, essa expressão pode não estar indicando de fato uma leitura da real necessidade da outra pessoa de fato estar bem, tampouco a pergunta como vai pode representar um real interesse de saber o estado de espírito do seu interlocutor.
O tradutor deve levar em consideração essas sutilizas quando ele faz seu trabalho.
O uso de notas de rodapé
Notas de rodapé podem ser muito boas quando estamos mostrar problemas ou um modo de traduzir em detrimento de outro. A escolha de um estilo pode ser muito importante para se atingir clareza para seu público ou mesmo para criar um público em torno daquela tradução. Vemos o quanto traduções antigas de textos considerados clássicos, isto é, de autores muito importantes em suas línguas, eram texto profundamente adaptados.
Um bom exemplo é a Coleção Clássicos de Jackson, de 1954. Nessa enciclopédia clássica vemos nitidamente o quanto os tradutores queriam trazer elementos sonoros em textos que originalmente portavam rimas. Eles de fato mantinham os versos rimados sem alterarem o sentido dos textos. Esse feito é hoje em dia altamente cansativo para a maioria dos tradutores, sendo visto como uma forma adaptada em alguns casos, porém, não se pode deixar de lado a sua importância, uma vez que se tornam reconstruções que dão conta de elementos da língua portuguesa talvez já em desuso ou que podem ser reveladores de formas ocultas de expressão.
Esses casos não são particulares, pois já estão entronizados no seio de nossa língua ainda que não sejam acionados tão rapidamente como os modos encontrados em um noticiário. Ah! Mesmo em noticiário encontramos seções que mudam completamente a forma de transmitir uma notícia. O tom jocoso e sério da seção policial contrasta enormemente com a seção esportiva e seu despojamento. Contudo, mesmo sendo notícias, costumam ser transmitidos de forma espetacularizada para atrair atenção das massas. Há com isso uma desvalorização de vernáculos mais elaborados para que sua transmissão seja mais rápida e alcance mais rapidamente um maior número de pessoas.
É importante que o tradutor esteja atento a esse fenômeno de redução de termos técnicos em sua complexidade quando os interesses de quem transmite a informação se acercam de escolhas de lado ou opiniões políticas preponderantes. Esse fato deixa de lado a ingenuidade típica do gesto tradutório e traz o problema que a língua deixa de frente a informação passada para seu público, o que tem levado a um paulatino empobrecimento substancial das línguas modernas como um todo nos últimos 400 anos.
O uso de notas de rodapé deve, por essa razão, ser utilizado para restaurar o sentido que pode estar eclipsado ou pouco elucidado pelo autor do texto em sua língua de origem. Vemos isso quando o autor é tradutor de outras línguas e pode não se dar ao luxo de explicar de modo pormenorizado suas ideias.
Traduzir como atividade literária
O manancial explorado de léxicos pelas línguas também está em dependência de como seus autores as compreendem. Não podemos deixar por essa razão de levar em consideração a adoção de estrangeirismos quando um determinado autor sai de seu país de origem e vai morar em outro. As influências de sua vida lá exigem dele que aprenda os novos códigos adotados pelo povo que lá mora.
É muito interessante ver como esse fato pode ser preponderante quando investigamos algumas opções de tradução. Gostaria de trazer um exemplo de quando viajei para a França e lá tive de usar o costumeiro vous, o vós em nossa língua, para conversas em detrimento do você e nosso conjugação como terceira pessoa do singular. Isso exigiu de mim aprender a utilizar o vous de maneira mais correta do que eu conjugaria o vós no português. Ainda que possuam a mesma função, por serem línguas do mesmo tronco latino, a utilização cotidiana dele em língua francesa exige um modo mais completo de quem estuda a língua.
Isso pode ser dito também na forma escrita do francês, a qual possui mais características narrativas do que em português. Isso se torna bem claro quando você recebe uma carta de um faltante nativo e ele utiliza um maior número de imagens em sua narrativa de um lugar, quase como se estivesse escrevendo uma poesia. Essa forma altamente literária se torna um indicativo de que a língua foi transmitida com mais essa carga de elementos em sua aprendizagem basilar.
Portanto, o fato de, em alguns momentos, a tradução poder ser vista como parte de uma atividade literária mais complexa, como por exemplo, o uso de sinais específicos em línguas antigas, essa atividade deve possuir uma ética em relação a sua transposição.
Apenas a confusão pelo embelezamento não ajuda em nada para quem vai ler a tradução. Um problema de suma importância nesses casos é uma introdução ou prefácio que expliquem o método utilizado para a realização da tradução. Isso pode ser de grande relevância para deixar o texto fluído e também para a demonstração das escolhas do tradutor.
A tradução profissional
Por fim e não menos importante é o resultado final de uma tradução. Ele precisa conversar diretamente com o texto e se mostrar útil para o público que o tradutor está a traduzir. Um texto técnico não pode ter a sutiliza de um texto poético. Da mesma forma que uso de metáforas em um texto científico não pode ser realizado da mesma forma em um contexto literário.
Apesar da aparente obviedade do parágrafo anterior é muito importante pensar no público a qual se destina a tradução. Outro elemento que pode parecer óbvio diz respeito a quantidade de conhecimento na língua original que se deve ter para se traduzir na outra língua. Lógico nos parece que o esforço em ambas é importante, mas com certeza um conhecimento na língua que se destina a tradução me parece muito mais importante, pois deve haver transposição de elementos relacionados ao público que dela se beneficiará. Por isso se traduzimos do inglês para o português é muito importante termos o português melhor estudado e praticado do que o inglês.
Outro elemento que nos ajuda muito é saber como o mesmo texto encontrou traduções distintas. As escolhas de outros tradutores são relevantes pois envolvem a forma encontrada, a qual sabemos ser distinta para cada idioma, mas esse trabalho deve ser observado atentamente. O olho do tradutor por vezes funciona melhor com seu ouvido, pois além dele ver no texto ele precisa de atenção auditiva na língua de destino.
Considerações Finais
A tradução de textos é uma atividade de grande valor e certamente suas considerações devem ser levadas adiante. Um texto é uma ferramenta de entendimento, seja pelo que ele contém em si, seja pela forma na qual ele soa em uma outra língua. Esse trabalho por si só traz uma imensa reflexão sobre a atividade, tanto da informação quanto sobre a forma adotada. Abaixo, colocamos algumas leituras de textos já desenvolvidos por nós acerca da reflexão de como traduzir se torna uma atividade de grande riqueza (KETZER, 2015) e também as contribuições de autores de diferentes linhas teóricas, interessados em estratégias de tradutórias.
Referências:
KETZER, Estevan. Por uma ética do ritmo: A tradu(i)ção bíblica de Henri Meschonnic. Arquivo Maaravi, v. 10, p. 47-61, 2016.
CAMPOS, Haroldo. Bere’shith: a cena de origem. São Paulo: Perspectiva, 2000.
MESCHONNIC, Henri. Critique du Rythme: Antropologie historique du langage. Paris: Verdier, 1982.
MESCHONNIC, Henri. Au commencement: traduction de la genèse. Paris: Desclée de Brouwer, 2002.
MESCHONNIC, Henri. Linguagem, ritmo e vida. Trad. Cristiano Florentino. Belo Horizonte: Faculdade de Letras/UFMG, 2006.
OTTONI, Paulo. Tradução Manifesta: double bind & acontecimento. Campinas/São Paulo: Editora Unicamp/Edusp, 2005.
PASSOS, Marie-Hélène Paret. Henri Meschonnic, tradução bíblica e tradição: a escolha do ritmo. WebMosaica, Revista do Instituto Cultural Judaico Marc Chagall. Porto Alegre, v.7, n.1, jan.-jun. 2015.
Autor: Estevan Ketzer