Estevan de Negreiros Ketzer  |  Psicólogo Clínico CRP 07/19032

Literatura clássica e estátua de porcelana sobre livros

A Literatura Clássica em 9 etapas

Introdução

O texto de hoje é de suma importância para quem deseja alcançar um conhecimento adequado sobre o mundo da cultura. A literatura clássica sempre foi o meio mais importante de desenvolvimento e transmissão de ideias virtuosas, isto é, as melhores entre as ideias. Entretanto, sempre dependeu dos homens aprenderem tais ideias e aplicá-las nos seus cotidianos para que estas pudessem desempenhar um grande diferencial em suas vidas com a literatura clássica.

Qual é o grande diferencial que a literatura clássica nos apresenta? A literatura clássica nos enriquece a vida. Quando entramos em contato com as grandes formas de pensar das diferentes civilizações compreendemos o quanto nossa civilização é formada de pequenos pontos que as levaram também ao seu apogeu. Nossa civilização pode trazer seus conhecimentos de maneira sintética e aperfeiçoar no nosso bojo cultural o que melhor lhe serve com a literatura clássica. O simples fato dela ter dentro de su suas ideias e as conhecido com afinco, seja por estudo livresco ou por contato direto, e por possuir uma disponibilidade a aprender, já propõe o quanto as trocas culturais podem ser benéficas com quem estude a literatura clássica.

Portanto, todo aquele que assim deseja ter um conhecimento adequado de sua própria civilização deve conhecer as outras a sua volta com a literatura clássica. Nós falaremos mais detidamente sobre esse ponto no decorrer do texto. Por momento, vejamos os pontos principais de nosso curso sobre “Literatura Clássica e formação do imaginário”. Cabe lembrar que a formação do imaginário também é condição sinequanon, pois, diz respeito a escutar a tradição e meditar sobre ela.

  Acompanhe aqui nosso cronograma de estudos em literatura clássica:

1 Literatura clássica grega

A começar pelos gregos nós devemos pensar o conceito de Paideia, como a formação do caráter do povo. Essa formação de caráter exige uma miríade de diferentes conhecimentos, todos bons quando seu intuito é a aprendizagem. Começamos pela formação do poema épico homérico, na qual seus versos rimados são assim feitos para ajudarem na memorização. O desenvolvimento da função memorialística, presente em grandes civilizações, é de suma importância para a transmissão das histórias de um povo.

Assim, segue a formação do herói, pois ele deve ser virtuoso por atingir a excelência com seus bons exemplos. A memória de um povo é tudo o que um povo precisa para começar a ser visto com exemplos duráveis. Daí que toda a memorização é seguida por uma repetição. A rima nos auxilia nisso em muito, pois, pela aliteração dos sons, cujo mote visa a facilitar o canto. Isso tudo está incluído dentro da literatura clássica.

O verso homérico é cantado, tanto na história da Ilíada, na qual a disputa de Helena por Paris, de Troia e Menelau, de Esparta, desencadeia uma guerra de dez anos no estreito de Dardanelos, na atual Turquia. Nessa guerra vemos os heróis Aquiles pelos gregos e Heitor pelos troianos, desencadearem um conflito grandes proporções, a ponto de ser cantado através dos séculos com a literatura clássica.

Vemos também o ainda incipiente protagonismo de Ulisses que retornará para a ilha de Ítaca, após a guerra de Troia, para rever seu filho, Telêmaco, e sua esposa, Penélope. Dessa jornada teremos o livro Odisseia, cujas aventuras mostram também como Ulisses usou sua inteligência para chegar a Ítaca e impedir o casamento de Penélope com um pretendente, tecendo um manto, o qual desata todas as noites, para assim postergar esse casamento.

Não podemos deixar de mencionar os poemas épicos de Hesíodo como a Teogonia e O trabalho e os dias. Nesses dois grandes épicos, temos a origem dos principais deuses na Teogonia, assim como o nascimento dos Titãs e como os deuses gregos fizeram para destruí-los. Já em O trabalho e os dias, Hesíodo nos traz o mito de Prometeu e Pandora, em que Prometeu traz o fogo aos homens, enquanto Pandora abre uma caixa com todos os males ocultos dos homens, lá deixando ainda a esperança.

O poema na literatura clássica segue com as cinco raças dos homens: raça do ouro; raça da prata; raça do bronze; raça dos heróis; raça de ferro. Para cada raça precisamos de compreender o quanto há de idades diferentes do pensamento do homem. Esses períodos também falam de uma lenta degradação da aproximação dos homens com os deuses.

De grande importância sobre a arte da literatura clássica grega está a dramaturgia , a qual encontra seu período consagrado com a democracia ateniense com as reformas de Péricles. Nós encontramos os dramaturgos, trágicos como Sófocles, Ésquilo, Eurípedes e, na comédia, Aristófanes os grandes dramaturgos da literatura clássica.

Vamos nos concentrar nas três tragédias tebanas de Sófocles, as quais apresentam a saga em Édipo Rei a arrogância de Édipo frente a investigação de assassinato de Laio, seu próprio pai e o casamento com sua mãe Jocasta. Em seguida vemos com a peça Antígona o conflito da filha de Édipo em enterrar seu irmão morto por Creonte, o qual impede que as leis funerárias sejam cumpridas.

E por fim, o drama Édipo em Colono, em que o rei tebano descreve os infortúnios de sua vida e por fim morre. Com essas três peças magistrais a crítica de Sófocles é diretamente ligada aos abusos de poder dos aristocratas vistos como perversores da boa política que levaria à felicidade de seu povo, por terem costumes devassos e vícios em suas vidas.

2 Literatura clássica da Mesopotâmia

Aqui estão os textos literários mais antigos que nos chegaram às mãos, o famoso relato épico, Epopeia de Gilgamesh (sha naqba imuru) e o relato sobre a Criação (Enuma Elish). Esses textos foram encontrados em escavações arqueológicas em Nínive, atual Mosul no Iraque, e publicados em tradução para o inglês em 1876, por George Smith. Em Gilgamesh vemos a busca da imortalidade por parte de Gilgamesh, o qual conta com a ajuda do amigo Enkidu para enfrentarem o gigante Humbaba.

Nesse mesmo texto vemos também o relato do dilúvio bíblico como descrito no livro de Noé, já apontando para a montanha de Ararat, no leste da Turquia. Em seguida, o relato sobre a Criação nos traz a vitória do deus Marduque sobre a serpente Tiamat. Em ambos relatos encontramos referências diretas com a Bíblia, sendo portanto, outro texto sapiencial da literatura clássica que traremos como base tanto para estudos de História, como de religiões comparadas e incluímos o texto como relato literário.

3 Literatura clássica na Bíblia

Os textos da Bíblia são os relatos que mais influenciaram pessoas no mundo. Sejam esses textos de origem ficcional, como vemos nos profetas Jonas e Daniel, ou em relatos com grande historicidade como o Livro de Ezras e o Livro de Reis, sua repercussão sempre desperta as gerações para conhecer seus valores e aprender com esses textos algo que diz respeito ao nosso íntimo. Ambos são muito importantes na literatura clássica.

Portanto, o estudo da Bíblia, mesmo não sendo cunho religioso é de grande inspiração para a literatura clássica. Com o tempo vimos o surgimento de divisões importantes no texto, as quais dão origem aos textos que temos hoje em dia. A primeira parte do texto é o Pentateuco (Torá), na qual constam os livros do Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Nessa primeira parte vemos a história do povo hebreu até o escravizamento no Egito e sua saída de lá com a condução de Moisés e a outorga dos dez mandamentos (aseret há’dibrot) aos pés do monte Sinai.

Também temos os 40 anos no Egito, mas a chegada em Jericó teremos com o profeta Josué, o qual a abre a segunda parte chamada de Livro dos Profetas (neevim). Ali temos os livros: Josué, Juízes, Samuel, Reis Isaías, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Num, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias. Em seguida, na terceira parte da Bíblia, Encontramos os Escritos (ketuvim) diversos: Salmos, Provérbios, Jó, Cântico dos Cânticos, Ruth, Lamentações, Eclesiastes e Ester.

Ainda há na Bíblia católica os livros Deuterocanônicos, pois foram traduzidos da língua grega e não do hebraico. Não foram incluídos no Antigo Testamente (tanach) judaico, pois, na época eram considerados muito recentes. Esses livros são: Tobias, Judite, I Macabeus, II Macabeus, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico ou Siraque e Baruque.

Com o advento do cristianismo tivemos o Novo Testamento (Evangelion) como uma continuação por parte do cristianismo de toda a mensagem trazida no Velho Testamento. Ali encontramos a mensagem de Jesus Cristo, entendido como o Messias e como filho de Deus.

A sua mensagem foi repercutida pelos 12 apóstolos, os alunos de Cristo, e tida como melhor explicada em 4 evangelhos considerados como canônicos (de melhor forma): Mateus, Marcos, Lucas, João. Também houve a inclusão do texto Atos dos Apóstolos e as epístolas paulinas: Romanos, 1 Coríntios, 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 Tessalonicenses, 2 Tessalonicenses, 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito, Filémom, carta aos Hebreus. Quando João teve exílio na ilha de Patmos, na Grécia, foi atribuído a ele a escrita do livro Apocalipse.

4          Literatura clássica da Índia

A Índia é o berço de toda a cultura indo-europeia e literatura clássica traz uma riqueza imensa. Sua influência é tamanha a ponto de ser uma referência que de tempos em tempos sai do Oriente e chega ao Ocidente como força avassaladora. O que desperta tanta curiosidade em conhecer seu povo milenar? Os textos sapienciais dos Upanishads e do Mahabaratha trazer uma sabedoria tão grande a ponto de nos sentirmos um pequeno grão de areia no universo. E talvez como um grão de areia é que somos quando lemos o épico Bhagavadgita a dita canção do bem aventurado.

Em uma guerra fratricida entre os Pandavas e os Kauravas, o príncipe Arjuna se questiona se deve lutar contra seus primos. Em meio ao campo de batalha todos param para ver o pronunciamento de Arjuna e seu interlocutor de maior prestígio, sri Krshna. Tal como o aluno a escutar o mestre, Arjuna escuta Krshna que lhe ensinara o caminho do autoconhecimento ou karmayoga. Esse caminho passa pelo desenvolvimento de virtudes através do conhecimento (vydia) e de uma prática de estudo prático sobre os vedas, a vedanta. Somente no último estágio será apresentado a Arjuna a importância da liberação (moksha) daquilo que não é parte de si mesmo.

O Bhagavadgita assim como vemos as antigas literaturas deveria ser usado para o canto e com o canto estar a síntese de todos os ensinamentos antigos. Sua importância também sintetiza os vedas e os upanishads, por dar a ética um fundamento na própria vida humana. Portanto, a meditação não é apenas um momento de respiração detida, mas também é refletir sobre o conhecimento aprendido. Isso é um dos elementos básicos do aprendizado do Bhagavadgita quando o lemos como parte da literatura clássica.

5 A literatura clássica Persa

O livro de poemas Masnavi, do poeta sufista Yalal ad-Din Muhammad Rumi .  O título Masnavi-i Ma’navi significa em persa “Casais espirituais”. O Masnavi é uma coleção poética de histórias derivadas do Alcorão e das fontes de hádits (ditos e feitos do profeta Mouhamed). As histórias são contadas com uma beleza profunda consagrada à literatura clássica. Elas ilustram uma variedade de sabedoria islâmica, mas centra-se principalmente em enfatizar a interpretação interna sufista pessoal. O Sufismo é uma vertente mística islâmica, baseada nos ensinamentos do primo do profeta Mouhamed, Ali, o qual foi teve força predominante na Pérsia, atual Irã.  

O livro poetisa as várias dimensões da vida e prática espiritual aos discípulos sufistas e ajuda quem deseja refletir sobre o significado da vida. Sua base é profundamente atrelada pelo ideal universal em que o homem deve negar sua existência física terrena para entender a existência de Deus. Sua forma traz sempre um problema, um enfrentamento e uma resolução. Nele podemos ver o ponto em que o termo árabe jihad é visto como a maior das lutas espirituais do povo islâmico ao manter-se em sua fé, sem invadir a fé do outro. Esse ponto é muito importante em literatura clássica.

6 Literatura clássica na Idade Média ocidental

O período medievo é marcado pelos romances de cavalaria encontramos no sul da França, em Provença. Embora os romances de cavalaria alcancem também os mais diferentes lugares da Europa, como as histórias do Rei Arthur na Cornuália inglesa. Nós devemos prestar devida atenção ao advento da história de Tristão e Isolda. Nesse importante romance de cavalaria temos a figura de Tristão, um jovem cavaleiro que se apaixona por Isolda, uma princesa destinada a casar-se com seu tio Marcos. Temos aqui a crônica de um amor impossível de se realizar, pois deve ser feito às escondidas.

É nessa encantadora história que encontramos a figura do amor cortês, tão presente entre os séculos XI e XII da Idade Média. Nessa forma de amor, o cavaleiro não pode consumar seu desejo pela dama da corte, mas deve transformá-lo em adoração, como se o fizesse para a Virgem Maria. Essa prática, muito danosa para o fortalecimento do catolicismo na Europa, levou ao surgimento de uma classe de clérigos guerreiros e, paulatinamente, a criação da ordem dos templários. Essa ordem foi de suma importância para o movimento das cruzadas e também para o começo das relações entre o Ocidente e o Oriente.

Durante o início do século XIV vemos o aparecimento da Divina Comédia com Dante Alighieri. Considerado a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino em forma de versos, Dante nos apresenta cantos nos quais os céus e o inferno, representados por diferentes círculos concêntricos, entram em conflito. Dante encontra Beatriz, sua amada na Terra, quando em sua ida pelo Purgatório. Lá, ele bebe da água do rio Lete e esquece de todos os seus pecados, chegando assim ao Paraíso. É digno de nota que nesta época Dante só ouvia falar dos textos da Odisseia e da Ilíada, mas por inspiração da oralidade dos textos eles o influenciaram profundamente na escrita da Divina Comédia. Eis um grande mérito da literatura clássica.

7 Literatura clássica na modernidade

A modernidade nasce com profundas transformações na Europa. No século XV vemos o fim do Império Romano do Oriente com a queda de Constantinopla pelos turcos otomanos; temos as navegações entre Portugal e Espanha, a chegada as américas com Cristóvão Colombo e a chegada à Índia com Vasco da Gama. Nesse período vemos o trabalho de Luís de Camões com os Lusíadas, em que a viagem de Vasco da Gama ganha vida nos seus versos épicos sobre o mar português, tal como as grandes conquistas e viagens que encontramos com os gregos e romanos da antiguidade. A viagem é um ponto alto presente em muitos livros da literatura clássica.

Não podemos deixar de lado o movimento reformista iniciado com Lutero na Alemanha. A reforma acabou por levar a uma contrarreforma na Europa. O movimento dos cavaleiros templários se transforma na Ordem da Cruz e vemos os jesuítas como novos missionários da Igreja Católica. Nesse contexto vemos Miguel de Cervantes escrever Dom Quixote na Espanha. Um cavaleiro que estudou demais a ponto de enlouquecer. Ele sai em busca de aventuras, mas é sempre acudido por Sancho Pança, seu fiel escudeiro que mostra a ele a realidade do que Dom Quixote não é capaz de entender.

Também na esteira da reforma, temos na Inglaterra o movimento anglicano com o Rei Henrique VIII. O teatro começa a se organizar em companhias independentes e na forma do palco que temos hoje. O grande expoente dessa época é William Shakespeare que faz severas críticas à reforma inglesa ao retratar reis e figuras de autoridade perversas. “O tempo está fora do eixo” (The time is out of joint), vemos no final do primeiro Ato de Hamlet.

As críticas de Shakespeare mostram como em Rei Lear e Macbeth o poder dá reviravoltas na vida dos personagens e os ajudam muitas vezes a lidarem com os conflitos que estão dentro de seus sentimentos por vezes ambivalentes. Esses elementos de conflito estão presentes sempre em grandes obras da literatura clássica.

8 Literatura clássica no romantismo

O romantismo foi um movimento de muita força literária. Ele possui suas raízes no trabalho Os sofrimentos do jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe, publicado em 1774. O trabalho ganha ares de movimento estético com os encontros de Goethe em Frankfurt à casa de Schiller na companhia de Schelling e Schlegel, entre 1897 e 1900. Chamado de “Tempestade e Ímpeto” (Sturm und Drang) trouxe uma literatura em conexão direta com os sentimentos.

O poeta imbuído ao pensar também é capaz de dar luz aos sentimentos, fazendo-os rumarem ao infinito, ou seja, a algo transcendente. O romantismo também esteve ligado ao retorno idealizado das origens do povo europeu, buscando na arqueologia e na filologia um princípio comum para as criações vigentes na realidade.

Além de Goethe com seus poemas e romances, o termo “romance” surge justamente como a fusão de diferentes gêneros literários, temos também as contribuições de Novalis (nome artístico de Georg Philipp Friedrich von Hardenberg) e Friedrich Hölderlin. Não podemos esquecer o romantismo tardio de E.T.A. Hoffmann, com seu célebre Homem de Areia, de 1815. A inspiração do romantismo chegou na filosofia com o trabalho Fenomenologia do Espírito, de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, 1807, e também na obra Assim Falava Zaratustra, de Friedrich Nietzsche em 1883.

É digno de nota como o romantismo se difundiu pelo mundo. Sendo uma literatura desenvolvida a após a Revolução Francesa, ela trouxe ares de uma modernidade diante ao colapso da aristocracia europeia. Além de Victor Hugo na França, é importante ressaltarmos o trabalho de Edgar Allan Poe, nos Estados Unidos, com seus poemas “The Bells” e “The Raven”, incluindo os contos “A Queda da Casa de Usher” e “O Gato Preto”, cujo estilo gótico é ressaltado.

Também o poeta Walt Whitman com seu livro de poemas Folhas de Relva; Nathaniel Hawthorne com A casa das sete torres; e o não menos importante Herman Melville com Moby Dick. Esses últimos três autores são considerados os grandes formadores da década de ouro da literatura clássica estadunidense, entre 1850 e 1960.

Passamos agora para a Rússia e seus grandes autores os quais aperfeiçoaram e difundiram a arte do romance com uma maestria não vista no mundo ocidental. Nikolai Gogol é conhecido pelo uso da ironia em seus contos “O Nariz” e o “Capote”, mas sem sombra de dúvida a peça Diário de um louco, é tida como uma das grandes peças do período romântico. Na contística e no teatro temos Antonin Chekov, o qual assinou “A dama do cachorrinho” e “Enfermaria nº5” e peças como Tio Vânia, Três Irmãs, A Gaivota e a comédia O Urso. Sem sombra de dúvida temos o romance de Liev Tolstoi, Guerra e Paz, de 1869, como um marco dentro da escrita do romance histórico.

E aqui em nossa lista é mais do que essencial ressaltar o trabalho de Fiodor Mokhailovitch Dostoievski em obras como Memórias do Subsolo, Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov. Seu detalhamento sobre a alma humana e a sobreposição de imagens inspiraram o romance do século XX e o cinema de maneira incomum para a época, algo profundo quando ele moderniza a literatura clássica da maneira com a qual ele o fez.

Não sem menos importância o trabalho do brasileiro Machado de Assis com seus poemas, mais de 300 contos e seus cinco romances de maior relevo:  Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908). Um homem dedicado a formação de intelectuais de grande relevo nacional e com um estilo irônico, sintético e muito arguto para os padrões da escrita da época.

9        Literatura clássica contemporânea

            O século XX chega como uma espécie de contraposição aos séculos predecessores. Essa noção é importante, pois vemos a arte chegar justamente ao profundo questionamento do que ela seja e isso deixou os artistas por vezes vagando sem um pé na tradição da literatura clássica.

Não podemos falar o mesmo de J. R. R. Tolkien e seus dois livros de maior importância O Hobbit e os três tomos de O Senhor dos Anéis. Tolkien reestabelece a literatura clássica ao patamar da ficção fantástica, utilizando-se de mitologia nórdica em profundidade e dos conhecimentos em língua proto-hindu-europeia. Seu universo ainda hoje invade nossa curiosidade com a ideia de um herói que trava uma jornada em busca de um objetivo transcendental. Também de grande relevância temos As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis. Esse autor também teve uma alta força de impacto em seus ensaios e reflexões sobre o cristianismo.

            Na Itália é importante citar a obra de Umberto Eco. Ele não apenas foi um linguista ligado ao estruturalismo francês, portanto um ensaísta, como seus romances impactaram profundamente o século XX. Obras como O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault, são conhecidas por trazerem questões epistemológicas com imensa dose de ironia e história.

Em O Nome da Rosa é realizada uma investigação para se descobrir quem está matando os monges de um mosteiro durante a Idade Média. Essa investigação leva a busca do famigerado livro da Poética II de Aristóteles, livro que trata acerca da comédia. A proibição de um livro que ninguém leu torna-se um elemento intrínseco à obra e de grande relevância para entendermos parte da mentalidade medieva.

            Não menos importante está Jorge Luis Borges e seus livros de contos Ficções e O Aleph. Borges nos apresenta seus contos com uma linguagem surrealista, sempre colocando o embate entre ideias e suas realizações. No conto “Pierre Menard, Autor de Quixote”, incluído no livro Ficções, temos um homem capaz de lembrar todas as linhas de Dom Quixote de Cervantes. Ele o faz de uma maneira tão única a ponto do narrador de Borges nos encantar com a “técnica nova” de Pierre Ménard, era apenas “a arte retardada e rudimentar da leitura”.

Essa postura irônica, mas ao mesmo tempo canônica de como a leitura deve ser empregada para trazer resultados absolutamente incríveis sobre a arte literária. Eis apenas um exemplo que Borges nos traz entre tantos cantos e poemas que ele nos legou.

Considerações Finais:

            A literatura clássica é de suma importância para formar nossas mentes com bons princípios de uma educação saudável. É também na literatura clássica o lugar adequado para pensar muito além dos conceitos tradicionais da educação, cujo problema maior reside em conceitos fechados e em certo ou errado. O caráter humano só se desenvolve quando é preenchido com grandes exemplos e quando esses mesmos exemplos podem ser usados para aperfeiçoar o ser humano no cotidiano.

            Um bom modelo de educação exige uma atenção constante aos gestos e não apenas uma superficialidade que atenda à aspirações sociais ou modismos. A educação é ligada às virtudes, pois com elas formamos cidadãos aptos a exercerem todos os cargos de nossa República. A leitura não pode ser apenas quantitativa nesse caso, mas antes qualificada com um bom professor que faça a mediação entre o conhecimento dos livros e a capacidade de assimilação de seus alunos. Somente dessa forma o aprendizado torna-se de fato eficaz e amplo, para a melhora admirada de nossa sociedade.

            A literatura clássicasempre se mantém através dos tempos. Ela é prova de que os tempos passam e seus autores estão atentos a sua passagem, mas também se atravem a trazer esse inquietante som do passado para um presente embrutecido. A educação possui poderes curativos. Devemos começar a pôr em prática agora mesmo com um bom estudo de nossa civilização.

Referências:

Otto Maria Carpeaux – História Da Literatura Ocidental

Ítalo Calvino – Porque ler os clássicos

Autor: Estevan Ketzer

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