A ansiedade é um transtorno mental com grande prevalência no mundo. Em média há 300 milhões de pessoas no mundo com esse transtorno. Somente no Brasil a ansiedade está presente na vida de 18,6 milhões de brasileiros, segundo a ONU (OPAS, 2024). Por esse motivo não é de se estranhar que durante a realização de um trabalho acadêmico possam surgir momentos de tensão excessiva ou mesmo ansiedade elevada.
O objetivo desse texto é trazer alguns pontos acerca de como entender a ansiedade e como ajudar o aluno que esteja a enfrentar um problema dessa monta. Não falaremos apenas da ansiedade em si, mas da situação ansiogênica. A situação ansiogênica envolve tanto elementos externos, quanto internos os quais são os gatilhos da ansiedade.
Como podemos conhecer melhor a ansiedade e não deixá-la tomar conta de um momento tão importante como o nosso trabalho acadêmico? Vamos observar alguns comportamentos típicos que mostram um descontrole emocional ou, como prefere a terminologia de Young, Klosko e Weishaar (2008) um esquema desadaptativo remoto. Um esquema disfuncional é um padrão desregulado pela pessoa, o qual a leva a tomar atitudes precipitadas ou evitativas. Portanto, é abstrata.
Veremos também como alguns pressupostos do combate à ansiedade estão profundamente relacionados ao ganho que podemos obter com a experiência de composição do trabalho acadêmico. As estratégias nessa tarefa são grande importância e por essa razão veremos algumas delas. Isso por si só já será de grande valor para o nosso texto.

1. Indicadores da ansiedade em nossa vida cotidiana
Inúmeras tarefas precisam ser realizadas durante nossa vida. Não podemos simplesmente deixar de lado coisas tão simples como sair de casa, estar asseados, com roupas adequadas para o ambiente a ser frequentado, etc. Essa percepção de adequação ao ambiente, unida a congruência emocional para a realização da atividade, são dois elementos muito importantes para adquirirmos a consciência adequada sobre nossos atos.
Quem aqui gostaria de sentir ansiedade por livre escolha? Sabemos o quanto a ansiedade nos faz perder o foco sobre o que estamos fazendo, dificulta nossa aprendizagem e participa ativamente no obscurecimento de uma percepção sobre nós mesmos. Uma pergunta típica de quem já começa a perceber o que acontece dentro de si é esta:
“Por que não entendi o que estava acontecendo comigo naquela situação?”
Essa ideia de “entender” pode ser um modo da pessoa falar sobre a dificuldade dela em “sentir” de modo assertivo acerca de uma dada situação vivenciada por ela. Como se define isso? Em primeiro lugar, um sentimento vivido é algo abstrato sobre nós mesmos. Essa abstração costuma estar associada a uma ideia pré-estabelecida: “Para ser feliz, preciso de determinadas condições, caso contrário, fico ansioso…” Esta é uma típica ideia, um julgamento muito estreito e pesado da pessoa sobre ela mesma.
Não é incomum o registro de que esse tipo de pensamento vem acompanhado de uma ideia de incompetência da pessoa com sua família, trabalho ou amigos. Uma inépcia para relações. A ansiedade é caracterizada por uma “contínua apreensão sobre o futuro, as circunstâncias atuais de vida, a situação financeira, a possibilidade de dano aos familiares e vários outros aspectos da vida” (GABBARD, 2006, p. 208). Por que essa percepção ocorre? Porque geralmente ela está tentando lidar do mesmo jeito com uma situação muito difícil há muitos anos. Vejamos o exemplo abaixo:
2. Um caso de ansiedade diante à uma vida de organizações exaustivas
Joana, possui entorno de 50 anos de idade, me procurou para ajudá-la com algumas situações de ansiedade e dificuldades com sono. Conforme conversávamos, ela me descreveu algumas situações de organização da sua rotina. Ela tem ajudado sua mãe, idosa de 89 anos, com sua locomoção. Por essa razão ela se mudou para morar com sua mãe em um apartamento muito pequeno, quarto e sala. Ela diz sentir que precisa organizar tarefas todo o dia, para ela não “esquecer”. Joana anota em papeis o tempo todo, faz notas e depois vê se acumularem sobre sua mesa inúmeras anotações que depois ela não sente vontade em realizar nenhuma.
Em nossas conversas, propus, inicialmente ajuda-la com o sono. Precisaria tomar uma medicação para dormir continuamente. Ela adotou com certa relutância a medicação. Em poucos dias seu sono melhorara muito. Joana relata “não se render ao sono quando ele vem”. Quando pergunto o porquê ela diz que se sente sempre tendo de dar organizar tudo. Por isso escreve em tantas notas. Pergunto a ela se ela conhecia a agenda de notas do celular. Ela disse nunca ter experimentado.
Na semana seguinte ela me informa que jogara fora todos os seus papeis da mesa e começara a anotar nas notas do celular. Isso a deixou bem mais aliviada: “Mesmo que não faça tudo o que escrevi, não tenho mais aquela montoeira de notas na mesa da sala!” Noto a dificuldade de Joana com o relaxamento em sua vida.
Ela me informa que durante sua vida sempre se impusera tarefas. Joana tem muitas dificuldades em dar limites à sua mãe, a qual ela cuida hoje em dia, sempre a criticara demais. “Quando ela fala comigo me sinto na obrigação de atendê-la imediatamente”. Ela me confessou que não gostava disso e não sabia como lidar com a mãe. Sugeri a ela que não precisasse responder imediatamente, porque durante uma tarefa ela não teria condições de atender sua mãe. “Ela não me escuta quando estou na cozinha”, disse Joana.
Eu mostrei a ela se ela não poderia ficar sem respondê-la quando solicitada pela mãe. “É, eu não tinha pensado nisso. Quero atendê-la e não me dou conta que fico me sentindo muito mal por ter de perder o foco da minha atenção”.
Lógico que a situação com sua mãe é algo que se prolonga com o passar do tempo. Joana teve conversas muito sérias com a mãe, mas ainda sente uma espécie de culpa pelas dificuldades de relacionamento com ela. Não é nosso propósito realizarmos um extenso estudo de caso sobre as relações familiares de Joana, mas queríamos mostrar um núcleo de ansiedade quem vem de uma relação muito conflituosa.
O nosso foco nessa breve descrição foi mostrar como pequenos apontamentos podem ser de muita relevância para a melhora de situações de ansiedade.
3. Alguns problemas específicos da ansiedade relacionada a trabalhos acadêmicos
Assim como Joana teve muita dificuldade em organizar suas notas para, em um primeiro momento, limpar sua mesa de trabalho, devemos prestar atenção em como algumas coisas que achamos adequadas podem estar justamente contaminando nossa relação com trabalhos acadêmicos. Aqui o questionamento que faço é o seguinte: o que é algo adequado?
Se o adequado deve ser algo para os outros verem e perceberem ou adequado para meus padrões? E mais uma pergunta: quais devem ser os meus padrões? Essa aqui passa a ser uma pergunta mais profunda de importância inclusive para a realização de um trabalho. É necessário ter em mente o que se quer dizer e encontrar o meio para se dizer, caso contrário o trabalho será muito raso. Esse problema é muito mais comum do que se imagina, pois se costuma fazer trabalhos muito rasos e muitos professores não conseguem interferir em como discutir esse problema com alunos.
Citarei um exemplo de uma aluna de pós-graduação que deveria entregar um trabalho de sete folhas para eu avaliar. Sugerir a todos os alunos que me procurassem para tirar dúvidas em horários disponíveis para ambos. Essa aluna, a qual chamarei aqui de Cátia, estava muito apreensiva com a entrega do trabalhando.
Cátia chegou a dizer que não entregaria o trabalho, dando explicações absurdas como “a faculdade vai fechar!” Aqui claramente vemos uma resistência de Cátia com a entrega do trabalho (MACKINNON; MICHELS; BUCKLEY, 2008). Eu disse explicitamente a ela que seria bom se eu supervisionasse o seu trabalho para entender a dificuldade.
Ela me enviou seu trabalho e eu o li. Marcamos um dia para poder fazer uma supervisão do que ela tinha feito. Ela compareceu na hora marcada. Eu expus o que havia lido no trabalho de maneira clara e tranquila, pois havia ideias concorrentes e nenhuma delas estava bem explicada no texto. “Seria melhor você pegar somente uma delas e trabalhar de maneira focada ao longo do texto”.
Ela ficou impressionada com o eu disse: “Ninguém jamais me havia dito isso antes. De fato, é um problema que me acompanha desde minha graduação. Já foi muito pior esse problema, pois, eu me sentia cobrada por minha mãe durante toda a faculdade. Sentia que não fluía escrever os trabalhos da faculdade”.
Eu resolvi dizer mais uma coisa para estimulá-la: “Você tem seis ideias aqui. Quem sabe você pode escolher uma que o seu coração acha que você deve ir ao encontro?” Ela ficou mais relaxada e disse que escolheria um dos temas dos seis para desenvolver. O resultado foi algo que até hoje acho incrível. Cátia fez um esplêndido trabalho!
Com esses apontamentos creio ter conseguido dar um bom exemplo de como foi o enfrentamento da ansiedade diante a um trabalho acadêmico. Eu irei na próxima etapa dar alguns exemplos de como podemos enfrentar a ansiedade tal como nos exemplos citados nas seções anteriores.

4. O que podemos fazer para diminuir a sensação de ansiedade?
Em todos os meus anos de experiência tanto clínica quanto de supervisão acadêmica eu notei alguns elementos que se repetem em certas demandas. A ansiedade está muito relacionada a elementos de profunda desqualificação pessoal, os quais tentamos reverter, porém, não sabemos como fazê-lo. A sensação de esgotamento é muito comum por isso, uma vez que nos sobrecarregamos com uma demanda, a qual por vezes não é nossa, mas sim das outras pessoas.
Já que tenho uma longa caminhada eu me perguntaria: qual é a medida que eu consigo suportar? Essa pergunta parece muito boba fora do contexto, mas é crucial para o entendimento da ansiedade.
Por uma exigência de excelência podemos perder o sono ou mesmo fazer as coisas sem pensarmos. Se perdermos o sono por muitos dias nosso organismo fica profundamente debilitado e aí perdemos a capacidade de aprender. Portanto, é preciso olhar atentamente para isso e se a falta de sono for recorrente procurar um psiquiatra ou neurologista que entrará com medicação adequada para a higiene do sono.
Fazer as coisas no automático é uma forma de não pensarmos. Para podermos ter excelência nas atividades precisamos de uma aprendizagem em como pensar. Isso exige também aprender a se comunicar, pois é pela comunicação que muitas ideias amadurecem e se desenvolvem. Também é na comunicação que conseguimos aos poucos aproximar ideias das coisas com sentimentos que as coisas nos passam. Esse movimento é extremamente importante, pois é com ele também que podemos ajustar a maneira que nos acostumamos a pensar e desvendar realmente qual foram os elementos limitantes.
Bom, agora é o momento de traçar uma estratégia para alcançar o objetivo proposto. Nessa fase é essencial não se cobrar tanto a ponto de paralisar, mas aprender a fazer o que é possível. Uma constância na hora de escrever ou ler é extremamente importante. Definir uma quantidade média de páginas, caso o prazo de entrega esteja exíguo, também é relevante.
Outro elemento que vejo como indispensável para esse momento diz respeito também a capacidade de adquirir curiosidade diante de uma tarefa. Como a curiosidade pode me fazer aprender mais? Isso implica em uma seleção de quais elementos do estudo são mais benéficos de entrarem do que outros. Como posso explicar esse conhecimento a partir de como eu o aprendi? Se fizermos essa pergunta já temos aqui um resultado muito bom, pois na maioria das vezes tentamos um ideal de conhecimento muito maior do que aquele que já temos conosco. É muito comum que pelo estudo nós já tenhamos alguma medida para validar sua demonstração em algum nível.
Também é digno de nota que uma boa maneira de explicar um conhecimento pela escrita é limitá-lo em algum nível. E essa dica não pode ser desperdiçada, uma vez que temos muito conhecimento na internet e precisamos de um filtro de tudo o que existe.
Mesmo o ChatGPT (2024)é uma ferramenta que necessita de boa utilização para extrair bons resultados dela. Um bom exemplo é o quanto já possuímos alguns dados e começamos a pedir ao ChatGPT (2024) para cruzar esses dados de uma determinada forma. Assim estamos testando hipóteses de trabalho. Mas esse é um assunto para outro texto!
Referências:
CHATGPT. OpenIA, 2024. Disponível em: https://ai-pro.org/start-chat-gpt/?locales=pt&flow=04&keyword=chatgpt&adid=714621952720&ppg=11&pmt=pay2&gad_source=1&gclid=Cj0KCQjwvpy5BhDTARIsAHSilylrjiy47-zgXXvsMdgpHheO3A3-2M-pj4bnLRyzIBxOeA1YtXjgNUIaAnllEALw_wcB.
GABBARD, Glen. Psiquiatria Psicodinâmica. Tradução de Maria Rita Secco Hofmeister. 4 ed. Porto Alegre: Artmed, 2006.
MACKINNON, Roger A.; MICHELS, Robert; BUCKLEY, Peter J. A entrevista psiquiátrica na prática clínica. Tradução de Celeste Inthy. Porto Alegre: Artmed, 2008.
OMS – Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde: CID-10. Tradução do Centro Colaborador da OMS para a Classificação de Doenças em Português. 3 ed. São Paulo: EDUSP, 1996.
OPAS – Organização Pan Americana de saúde. OMS destaca necessidade urgente de transformar saúde mental e atenção, 17 jun. 2022. OPAS, 2022. Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/17-6-2022-oms-destaca-necessidade-urgente-transformar-saude-mental-e-atencao. Acesso: 04 nov. 2024.
YOUNG. Jeffrey. E.; KLOSKO, Janet S.; WEISHAAR, Marjorie E. Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Tradução de Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Autor: Estevan Ketzer