Estevan de Negreiros Ketzer  |  Psicólogo Clínico CRP 07/19032

Biblioteca do IMEC, mesas e cadeiras com pesquisadores.

Minha pesquisa com os acervos do IMEC na França

Introdução

No ano de 2014 eu consegui uma bolsa junto a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) para a realização de estágio internacional entre a minha universidade a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e a Université de Strasbourg (UNISTRA), na França. A bolsa por mim pleiteada tinha de passar por uma rigorosa avaliação de comissão interna da PUCRS para ser solicitada à CAPES. Nessa avaliação eu havia inserido dentro do projeto, na seção “cronograma de atividades”, a visitação com cunho de pesquisa ao Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine (IMEC).

O IMEC foi fundado em 1988 como uma instituição sem fins lucrativos e fortemente relacionada a Bibliothèque Nationale de France (BNF), localizada em Paris. O Acervo conta com 80 mil obras e 650 coleções dos mais diferentes autores de língua francesa. Ele foi criado para ser uma referência aos pesquisadores das mais diferentes áreas: historiadores, artistas, filósofos, pesquisadores da literatura, musicistas, pesquisadores do cinema, críticos, tradutores, editores, escritores. Sua missão é o enriquecimento cultural de toda a França com curadores qualificados, acervos dos mais diferentes tipos, exposições tanto de arte quanto de literatura, pois, o IMEC mantém sua visitação aberta. O investimento anual do IMEC gira na casa de 3,9 milhões de euros, sendo financiado com fundos do Estado francês e pelo Conselho Regional da Baixa Normandia, ambos divididos igualmente.

No artigo de hoje, explicarei pela primeira vez como foi minha ida ao IMEC.  Falarei especialmente do que vi e das páginas que consultei já prospectando certos resultados e também me deparando com elementos não esperados durante o tempo de pesquisa. Outro importante tema que darei ênfase é como foi para mim pesquisar os arquivos específicos de um autor muito importante para minha pesquisa. Como é ler arquivos com recortes e correções, escritos à mão em paralelo a escritos digitados. Esses e outros achados desejo muito que os pesquisadores que se proponham a realizar uma tarefa como essa possam também retirar da minha experiência um benefício.

Uma visita à Abadia de Ardenne

1. Chegada a Strasbourg e ida ao IMEC

Minha bolsa de pesquisa teve duração de nove meses. Dentro dessa bolsa de pesquisa eu estabeleci um cronograma de pesquisas que envolvia não apenas o IMEC na França. Eu também havia organizado uma série de outras pesquisas pequenas, apresentações científicas, artigos científicos e parte da escrita da minha tese.

Antes de chegar ao IMEC eu passaria por uma longa trajetória ao me estabelecer em solo francês e começar a organizar minha vida lá. Era necessário ter um contrato de aluguel e com ele retirar o Office Français de l’Immigration et de l’Intégration (OFII), Escritório Francês da Imigração e da Integração. O OFII é um documento específico para estrangeiros que residem em França, sendo um documento imprescindível para a permanência em França. Ele é expedido pela prefeitura (mairie) da cidade onde se habita. Me estabelecer em solo francês demorou duas semanas e logo em seguida já tinha em mãos tanto a matrícula na UNISTRA, quanto o OFII.

2. Estada na Abadia d’Ardenne

Eu enviei um email para o IMEC solicitando uma semana em junho de 2015 para realizar a pesquisa. O endereço do IMEC fica na Abadia de Ardenne (Abbaye d’Ardenne), localizada próxima a cidade de Caen, no estado da Normandia. Essa abadia foi parcialmente destruída durante a Segunda Guerra Mundial e foi reconstruída para ser a sede do IMEC.

Portanto, tive de organizar cada passo de minha ida à cidade de Caen, pois, ela era do outro lado da França. Saí a meia noite de primaveril, pegando um ônibus de Strasbourg até Paris. De lá peguei um carro até a Abadia de Ardenne. Cheguei durante o começo da tarde e nesse dia havia reservado um hotel nas proximidades da Abadia. É importante frisar que a Abadia tem horários muito restritos para todas as suas atividades. Desde a chegada (check-in), até o horário de pesquisa nos acervos (durante a manhã, das 9h até às 12h e pela tarde das 14h às 17h). Quando se chega se recebe uma chave com o quarto em que ficarei hospedado e todas as instruções de visitação e os horários das refeições (são servidas três refeições referentes a café da manhã, almoço e jantar). O valor que foi pago é muito justo se comparado a hotéis de médio porte. Solicitei além das refeições a estada (hébergement) por três noites.

3. A pesquisa no acervo do IMEC

Quando enviei o email solicitando a estada para a pesquisa nos acervos do IMEC eu havia solicitado também alguns documentos específicos. Esses documentos envolviam o acervo do filósofo judeu-argelino Jacques Derrida acerca do seu interesse pelo poeta romeno-francês Paul Celan. Eu sabia que o acervo de Jacques Derrida estava liberado para consulta.

Esse fator é muito importante pois dentre os muitos autores que estão no catálogo possuem restrições de consulta, pois há documentos pessoais (no caso específico dois autores como Roland Barthes e Michel Foucault se encaixam nessa categoria). Eu friso essa circunstância, porque justamente na semana em que estava pesquisando eu tive contato com o filho de Emmanuel Levinas, filósofo que também possui acervo no IMEC. Seu nome é Michaël Levinas, ele é musicista. Michaël estava no IMEC pois faria uma apresentação de seu pai e havia no acervo alguns documentos para serem pesquisados. “Mesmo eu que sou filho tenho de pedir autorização ao IMEC para pesquisar sobre meu pai.” Ele me disse isso com um tom de certa contrariedade.

Voltarei agora ao tema dos materiais de consulta. Além dos materiais que solicitei, havia nas mesas do IMEC um catálogo com as caixas e com um título específico para cada documento. Isso facilitava muito a pesquisa, pois eu além dos documentos que solicitei pedi para ver outros. É importante lembras que me era permitido levar meu computador para anotar os documentos que eu quisesse, porém, era proibido tirar fotos dos documentos. O trabalho de transcrição tornou-se portanto bem árduo. Alguns documentos eram longos demais para serem transcritos no seu todo, então preferi anotar o nome do documento e os trechos que me chamavam atenção.

De tudo o que eu pude ter contato e o que mais me chamou atenção para minha pesquisa, foi uma tradução realizada por Derrida de um poema de Celan. Nessa tradução havia muitas marcas feitas à mão sobre as partes digitadas. Isso foi incrível, pois era um documento que não tinha sido publicado e continha ali algumas das coisas que justamente eram meu objeto de pesquisa sobre essa interação de Derrida com a obra de Celan. Nesse documento, não por nada o primeiro da lista que solicitei ao IMEC, meu coração se encheu de alegria com a leitura!

Eu havia lido alguns textos de Philippe Willemart (2009) acerca da crítica genética. A crítica genética é uma disciplina que aborda os textos rejeitados ou não publicados do autor como fonte primária para pensarmos elementos que podem estar dentro ou fora de sua obra. Eu estava me sentindo um detetive textual quando me debruçava sobre aquele poema. Outro documento que me chamou muito a atenção foi uma carta endereçada a Jean Pierre Lefbvre, em que Derrida faz um breve resumo da biografia de Paul Celan ao amigo.

Eu transcrevi ao todo 15 páginas durante os três dias que permanecei na Abadia de Ardenne. Por que tão poucas páginas? Em primeiro lugar, porque durante o tempo que estive lá havia muitos manuscritos para serem olhados com atenção. Essa atenção toma muito tempo. É ler, avaliar e cogitar se sua validade merece ou não ser transcrita. A maioria dos documentos que tive contato já tinham sido publicados em edições regulares. Poucos documentos realmente teriam algum valor de pesquisa, isso é, trariam um ineditismo sobre o foco em que havia me debruçado. Eu refiro isso porque também faz parte do olhar do pesquisador identificar o que é imprescindível para a especificidade de sua pesquisa e o que não terá como abarcar. Isso vejo como extremamente importante, pois na maioria das vezes temos uma curiosidade dispersiva e ela não nos ajuda quando temos pouco tempo.

Outro fator que considero importante para ter sido tão sintético na minha transcrição é que não havia tantos documentos assim sobre o interesse de Derrida sobre Celan. Esse fato é muito importante, pois tendo em vista os interesses variados de Derrida sobre literatura, filosofia e psicanálise, há 6 trabalhos oficiais dedicados a vida e obra de Paul Celan (DERRIDA, 2005).

Considerações finais

Foi extremamente importante para minha formação não apenas ter feito o estágio internacional na UNISTRA, como também tendo realizado a pesquisa nos acervos do IMEC. Foi por essa pesquisa que eu tive muitas bases para publicar meu primeiro livro O Silêncio da Poesia (Dialética, 2024) e começar uma carreira dentro da escrita e com a consultoria acadêmica. Reforço ter sido importante por toda a bagagem que vi se consolidar em mim durante esses anos nessa viagem.

Apesar de ter sido um período muito curto em que fiquei instalado na Abadia de Ardenne, 4 diárias, foi um período profundamente enriquecedor. Primeiro, porque há muito interesse por parte do IMEC em divulgar os autores do instituto. Trago aqui uma breve lista suscinta com os mais conhecidos: Samuel Beckett (1906-1989); Yves Bonnefoy (1923-2016); Marguerite Duras (1914-1996); Frantz Fanon (1925-1961); Genet, Jean (1910-1986); Alain Robbe-Grillet (1922-2008); Erik Satie (1866-1925); Alain Resnais (1922-2014); Louis Althusser (1918-1990); Alain Badiou (né en 1937); Roger Bastide (1898-1974); Jean Baudrillard (1929-2007); Cornelius Castoriadis (1922-1997); Pierre Clastres (1934-1977); Jacques Derrida (1930-2004); Georges Didi-Huberman (1953); Philippe Lacoue-Labarthe (1940-2007); Serge Leclaire (1924-1994); Henri Lefebvre (1901-1991); Emmanuel Levinas (1905-1995); Joyce McDougall (1920-2011); Henri Meschonnic, (1932-2009); Edgar Morin (1921); Stéphane Mosès (1931-2007); Antonio « Toni » Negri (1933-2023); Jacques Rancière (1940); Jean-Pierre Vernant (1914-2007).

Acredito que foi também um grande exercício de autonomia para mim enquanto pesquisador realizar esse trabalho de uma forma tão sistemática e que me fez um profundo bem. Adquiri um profundo conhecimento da língua francesa e também pude aprender a fazer pesquisa em um acervo internacional. Sou muito grato a todos que estiveram envolvidos diretamente ou indiretamente com realização.

Referências:

DERRIDA, Jacques. Sovereignties in question: the poetics of Paul Celan. Edited by Thomas Dutott and Outi Pasanen. New York: Fordham University Press, 2005.

IMEC. Disponível em: https://www.imec-archives.com/

KETZER, Estevan. O silêncio da Poesia. São Paulo: Dialética, 2024.

Disponível em: https://loja.editoradialetica.com/humanidades/o-silencio-da-poesia.

WILLEMART, Philippe. Os Processos de Criação: na escritura, na arte e na psicanálise. São Paulo: Perspectiva, 2009.

Autor: Estevan Ketzer

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