A fenomenologia é um método muito importante para o desenvolvimento das ciências humanas ao longo de todo o século XX. Veremos como a proposta da fenomenologia é extremamente importante para lidarmos com os dados que pretendemos extrair na nossa pesquisa. Nós examinaremos as etapas da redução eidética ou redução fenomenológica, tal como proposto por seu criador Edmund Husserl e seus desdobramentos na pesquisa acadêmica.
1 O que trata a fenomenologia?
A fenomenologia é um ramo da filosofia que se dedicou às condições acerca do conhecimento que podemos ter sobre as coisas. Quando nós falamos de “coisas” estamos na verdade falando de fenômenos, pois eles definem tanto as propriedades das coisas, quanto o que é necessário para captá-las.
E para entendermos bem um fenômeno temos de levar em consideração como experenciamos a coisa que vemos. Isso nos leva a tentar compreender a experiência que estou tomando apara poder descrever uma coisa tal como ela é e não como outra coisa diferente dela. Diferentemente da epistemologia, galgada pelas duas faculdades do saber tanto empírico quanto racional, a questão da fenomenologia se deteve sobre o processo que utilizamos para descrever a coisa.
“Prestar atenção à experiência em vez de aquilo que é experenciado é prestar atenção aos fenômenos”, segundo o trabalho de Cerbone (2014, p. 13).
Se estou lendo essas palavras aqui existe algo que me causa a minha experiência de ver. Por exemplo, a falta de nitidez na leitura de uma palavra. Será que preciso de óculos para enxergar? Deve haver então um problema no meu olho. Esse fato já me leva para longe da experiência que tenho com o enxergar, pois, estamos nos detendo muito rapidamente sobre as circunstâncias que atrapalham um bom modo de enxergar ao invés da experiência mesma de enxergar.
É nesse aspecto que a fenomenologia nos diz para irmos de volta a experiência no contato com as coisas. As coisas são parte integrante da experiência, mas não são da mesma natureza que o olho que lê o texto desse site. Há, portanto, uma intencionalidade no meu ato de ver. Eu vejo impreterivelmente um lado do objeto e excluo outros. Isso não significa ver minha introspecção, pois aí teríamos fugido a objetividade da experiência.
“Mesmo a sua experiência momentânea inclui mais do que aquilo que você momentaneamente vê, ou seja, mais do que aquilo que você está vendo neste momento” (CERBONE, 2014, p. 15)
A experiência do momento presente inclui mais do que vê nesse exato momento que vê. Estamos ampliando agora a ideia inicial que tivemos sobre a profundidade do ato de ver alguma coisa. E por si só é um ato tão simples, mas carregado de uma estrutura complexa. Portanto, sendo uma estrutura, deve necessariamente haver algo essencial acerca do que faz a experiência desse ver. E isso é entender o que faz essa experiência de ser o que ela é.
As coisas pequenas se conectam em uma unidade, porque todas as pequenas coisas convergem para aquela experiência em sua particularidade. Isso é a base da experiência a qual Edmund Husserl acreditava a filosofia ter se perdido ao longo do tempo. Sua frase marcante era: Para/em direção as coisas em si mesmas (zu den Sachen selbst), já em seu livro Investigações Lógicas de 1900.
Esse pensamento se põe como uma nova exigência de organização de toda as ciências humanas que se desenvolveram ao final do século XIX. Pensadores como Nietzsche, Marx e Freud partem de visões muito distintas, mas tentam de algum jeito provocar um abalo sísmico na estrutura das ciências humanas. Para eles há um elemento reminiscente que a racionalidade não dava conta. Podemos dizer que eles tirando inferências muito rapidamente enquanto observam os fenômenos em suas ciências particulares.
Entretanto, podemos entender o retorno as coisas mesmas de Husserl como a virada da percepção objetiva sobre o objeto a ser descrito. Esse fato, por si só, já busca as bases do fundamento de nosso ver. Nós veremos como as fases da redução eidética nos ajudam a captar objetivamente a intenção primordial do ver objetivo.

2 As fases da redução eidética
Ao investigarmos o conhecimento devemos fazer sua crítica por completo. Por isso cair a condições metafísicas anteriores ao ver pode ser muito prejudicial se estamos tentando estabelecer a veracidade concordante entre nosso ver e o estado do objeto que se encontra a nossa frente. Para tanto, Husserl desenvolver três níveis para reduzir essa experiência com o objeto, chamando-os como parte de um método chamado de redução eidética.
Autores como Descartes, Hume e Kant não foram suficientemente céticos a ponto de não negarem a autoridade do conhecimento sobre a percepção mental de quem o recebe. Kant teve um cuidado maior, pois observou que há condições externas anteriores ao conhecimento, as quais ele chamou de juízos analíticos a priori. Contudo, Kant os viu como coisas independentes do sujeito que percebe, tais como espaço e tempo. Posteriormente, Hegel contribuiu para voltar ao primado da razão como outra condição externa ao sujeito.
Tanto Kant como Hegel possuem uma dificuldade em olhar internamente a estrutura que observa o objeto de maneira concreta como um problema. Esse problema não pode mais ser observado do ponto de vista da epistemologia, pois limita profundamente o elemento fenomenológico. Essa dúvida passa impreterivelmente por três movimentos essenciais diante ao objeto que estamos nos indagando: 1) Suspensão; 2) Descrição; 2) Intenção.
- A suspensão: devemos suspender julgamentos e juízos. Ao partirmos de uma ideia muito simples de que se temos a consciência de que uma coisa é, possui um elemento essencial sobre si mesma, o que é uma evidência. Isso me obriga a considerar que há algo transcendente sobre minha percepção organizada da realidade, mas que na verdade é um fenômeno imanente, a forma na qual eu a crio. Esse método trans-imanente, utilizado pela fenomenologia, nos proporciona clareza sobre o começo de nosso real busca por clareza diante a esse primeiro impedimento. É exatamente aqui que o ver rapidamente se transforma em dado, pois ele cria a ilusão da apreensão de uma coisa pela sua quantidade espacial, pois “não pode utilizar nenhuma forma de ciência natural” (HUSSERL, A ideia de fenomenologia, p. 25). Ao assumir a existência de fenômenos não estamos afirmando serem eles o mesmo sistema das verdades vigentes.
- A descrição: a percepção psicológica humana não é pura por si mesma. O fenômeno puro deve ser absolutamente obtido pela intuição, ao enxergarmos os fenômenos nas suas singularidades (complexidades crescentes ou limitadas pelo objeto). Eis que levamos a consciência da universalidade como uma parte indispensável da essência do conhecimento. “O conhecimento do universal é algo de singular, é sempre um momento na corrente da consciência; o próprio universal, que aí está dado na evidência, não é algo de singular, mas, sim, um universal, portanto, transcendente em sentido verdadeiro” (HUSSERL, A ideia de fenomenologia, p. 29). Isso exclui tudo que não evidente (por exemplo, 50 cadeiras em uma sala que me dão a ideia de uma ‘cadeira’, a qual é pura abstração na contagem de números. O sentido transcendente da coisa intuída mantém-se.
- A intenção: um fenômeno não é apenas uma manifestação de algo. É necessária uma distinção entre o fenômeno como esse elemento que faz a causa e a consequência, da manifestação da coisa. O objeto pode possuir fases diferentes de duração (por exemplo, o som) e elas são o próprio objeto a se manifestar ainda em uma unidade fenomenológica. Portanto, o existir de uma coisa precisa necessariamente ser visto e elaborado, pois as “vivências da estrutura específica e mutável” (HUSSERL, A ideia de fenomenologia, p. 32), tais como a percepção, a fantasia, a memória, entre outras funções mentais complexas. As coisas se constituem nessas funções complexas e constituem o ato mental também. “As coisas não existem para si mesmas e ‘enviam para dentro da consciência’ os seus representantes” (HUSSERL, A ideia de fenomenologia, p. 32-33). Essa estrutura pronta que nos faz ver a cor azul como azul é chamada de intenção fenomenológica por Husserl.
3 Pesquisar com a fenomenologia
Como vimos acima, a fenomenologia se mostra um método de investigação em ciências humanas mais profundo. Essa profundidade levou muitos pesquisadores a aproximarem seus métodos de métodos em ciências sociais, como na antropologia e na sociologia, como Alfred Schütz, Gerge Herbert Mead e Clifford Geertz. Inclusive a própria psicologia começou a se beneficiar de suas pesquisas sendo central para dois grandes psicólogos no século XX: Carl Rogers e Viktor Emil Frankl. Eles desenvolveram escolas de psicologia profundamente integradas ao olhar da fenomenologia em diferentes contextos (GOMES, Fenomenologia e Pesquisa em Psicologia).
Mais do apenas considerações sobre o ver, tais como Edmund Husserl trouxe, esses pensadores estavam preocupados em olhar relações e considerar a realidade baseada em interpretações da realidade. Quando observamos as interpretações começamos a entender como os pontos sugeridos por Husserl são importantes, mas sempre elementos que podem ser acrescentados quando nos dispomos a tentar entender a essência das coisas. Elas passam impreterivelmente sobre o modo como as vemos no tempo em que estamos observando. Naturalmente, esse tempo também acrescenta algo sobre a coisa, a qual por vezes pode nos surpreender.
Portanto, o olhar humano que lançamos pelo auxílio da fenomenologia nos auxilia a interpretar ou criar métodos sobre como certas especificidades se mostram no mundo da vida (STEIN, Mundo Vivido). O método fenomenológico por pensar as dificuldades na maneira que somos levados a interpretar a vida corretamente é parte desse fascinante percurso. Uma vez que não podemos estar simplesmente abandonados a uma racionalidade limitada pelas ciências e suas particularidades torna-se importante integrar uma visão do ser humano fenomenologicamente orientado por essa estrutura de sentido na qual a realidade se apresenta sem prestarmos atenção.
Por esse motivo os dois grandes discípulos de Edmund Husserl se dirigiram a dar uma continuidade a fenomenologia. Martin Heidegger, propôs uma ontologia fundamental na qual a pergunta sobre o ser das coisas deveria ser novamente levantada pelo horizonte de responsabilidade do ser humano em um dado tempo; enquanto Emmanuel Levinas observa a relevância da ética como o movimento fundamental de onde emanariam as relações primordiais do ser humano (DARTIGUES, O que é a fenomenologia?).
Ambos os autores pensam a fenomenologia como uma ponte para uma descoberta muito maior galgada nas formas denominativas do Ser (Sein, em alemão). No caso de Levinas, a primazia da ética leva ao não-ser, pois proporciona uma relação (Beziehung). A relação é algo caro a todas as civilizações e proporciona com maior ênfase o respeito à vida do primogênito, tal como a tradição judaica nos apresenta. Portanto, a investigação de Levinas sai dos usos da linguagem do ser, apresentada por Heidegger, e baseia-se nas relações reais entre pessoas. Ambos pesquisadores possuem importância fulcral no desenvolvimento da fenomenologia, porém, são criadores de escolas específicas da vertente fenomenológica.
Portanto, um uso que podemos começar a fazer da fenomenologia em nossas pesquisas é propor um inquérito sobre como nosso objeto se relaciona com o mundo à sua volta, tal como propõe Maurice Merleau-Ponty (GOMES, Fenomenologia e Pesquisa em Psicologia), com a ajuda do próprio corpo que vivencia o mundo.
Nós podemos propor uma série de perguntas apenas com base a ideia de um corpo e seu entorno. Por exemplo, peguemos pessoas idosas que moram em situações de irregularidade em uma periferia de uma grande cidade. Conhecendo já alguns aspectos de suas vidas podemos realizar algumas perguntas sobre como elas se enxergam frente a problemas de saúde:
Quais elementos do entorno delas compõe parte de suas apreensões da realidade?
Como o corpo delas reage a esses elementos do entorno?
Elas possuem sonhos ou perspectivas diferentes sobre suas situações de vida?
Se elas possuem essas perspectivas, o que as impedem de tomar atitudes?
Como a pessoa pensa suas condições de vida frente a situações de sua trajetória?
Como o espaço em que vivem as compreendem?
Essas perguntas por si só podem ser muito importantes para desenvolvermos um melhor atendimento de suas necessidades frente ao Sistema de Saúde (SUS). De modo mais específico, como o posto de saúde pode chegar até as suas necessidades? Isso ajudaria em muito a reduzir a mortalidade de idosos naquela região e gerar conhecimentos sobre outros idosos que podem estar passando por dificuldades semelhantes.
Conclusão:
Nós pudemos observar alguns elementos importantes em que a fenomenologia possui uma aplicação em pesquisas, tanto em ciências sociais, quanto em ciências da saúde. As perguntas que a fenomenologia realiza devem servir para um pensamento, mesmo que por vezes sua resposta não chegue de imediato. O pensar fenomenológico através do encontro que se dá entre duas pessoas também nos fala diretamente de um relevo acerca da complexidade de relações e ideias que podemos ter em determinada situação.
Nossa contrição trouxe algumas ideias que possam ser aplicadas diretamente na pesquisa. Essas ideias podem ser complementadas junto a outras teorias e métodos particulares. Portanto, como já escrevemos anteriormente acerca da Teoria Fundamentada, não é necessário sermos puristas com a fenomenologia. É mais interessante ter a disposição à investigação, tal como estava no cerne dos escritos de Edmund Husserl.
Por fim, nossas recomendações sobre os usos da fenomenologia em pesquisa visam a educar o olhar do pesquisador para o fenômeno, o qual já vimos não se restringe ao que aparece, mas também diz respeito ao que está subjacente ao que aparece. Esse olhar é extremamente relevante para uma pesquisa madura e a como ela pode atuar para o desenvolvimento de mapeamentos de populações humanas, formas de organização do espaço, planos de atividades, técnicas específicas para populações, enfim, outras ideias que envolvam conhecer pessoas com foco em um objeto concreto de estudo.

Referências:
CERBONE, David. R. Fenomenologia. Tradução de Caesar Souza. Petrópolis: Editora Vozes, 2006.
DARTIGUES, André. O que é a fenomenologia? Tradução de Maria José J. G. de Almeida. São Paulo: Editora Moraes, 2003.
GOMES, William Barbosa. Fenomenologia e Pesquisa em Psicologia. Porto Alegre: Ed. Universidade UFRGS, 1998.
HUSSERL, Edmund. (1907) Ideia de Fenomenologia. Tradução de Artur Mourão. Lisboa: Edições 10, 1989.
STEIN, Ernildo. Mundo Vivido: das vicissitudes e dos usos de um conceito de fenomenologia. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.
Autor: Estevan Ketzer