Estevan de Negreiros Ketzer  |  Psicólogo Clínico CRP 07/19032

Psicologia da Bíblia

8 motivos para estudar a psicologia da Bíblia

Introdução à Psicologia da Bíblia

Aquele que estuda a psicologia da Bíblia está se deparando com algo de sagrado em sua vida. Ele conecta-se com o mais profundo entendimento do pensamento da antiguidade, a qual é de extrema importância para o crescimento espiritual. Esse crescimento deve ser passado de geração em geração pela Bíblia, mas também pela tradição oral que a acompanha.

 No texto de hoje, veremos os motivos para estudar a psicologia da bíblia.

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1 – Os símbolos da psicologia da Bíblia

  A Bíblia e repleta de símbolos. Esses símbolos são elementos fortes para a vida humana no sentido de ativarem emoções. Quando estamos apenas com as partes racionais ativadas isso nos exige uma retomada do lado simbólico da vida. E fazer isso é profundamente psicológico, pois a psicologia da Bíblia exige esse encontro com pedaços nossos por vezes distantes.

  O retorno ao sagrado é algo que encontramos na psicologia da Bíblia. O sagrado se manifesta em uma imagem de um Deus que se comunica conosco, tanto quanto nós nos comunicamos com ele. Essa relação de afinidade é o elemento principal da relação com Deus. Nesse sentido, quanto mais elementos pudermos trazer para essa relação melhor poderemos encontrar formas de Deus se manifestar e de nós criarmos expressões para essa comunicação com a psicologia da Bíblia.

  Esses registros muito antigos estão presentes na ideia da Filosofia Perene, na qual os povos antigos estavam unidos e com o tempo foram se dispersando em diferentes tradições. A tradição dos antigos hebreus chamava isso de conexão (devekut). Esse elemento é essencial para a psicologia da Bíblia, pois, com a destruição do Segundo Templo de Salomão, por Tito, em 516 aec, a consciência do simbolismo começa a tomar uma força muito maior nos autores da Bíblia. Surge a Escola de Yavne (I e II sec. da era cristã), em Israel. O templo sagrado deixa de ser um lugar físico para habitar no interior do ser humano, conduzindo assim a criação de um modelo de psicologia da Bíblia.

2 – Alma na Psicologia da Bíblia

Giuseppe Angeli – Elias se eleva em uma carruagem de fogo (1740), National Gallery of Art, Washington, DC, USA.

Segundo o livro 2 Reis, no Velho Testamento, o profeta Elias foi levado aos céus por uma carruagem (merkavá). Essa ideia mostra como não foi apenas Elias que ressuscitou e foi elevado aos céus, mas também uma parte sua importante, a ideia de um de algo que permanece mesmo com a morte do corpo físico.

Essa influência já vinha dos gregos com os ditos de Sócrates escritos por Platão. A ideia de alma (psiquê) como uma entidade abstrata e eterna nos causa ainda um espanto para além do que a ciência é capaz de provar. Isso é tão forte a ponto servir de modelo para inúmeras tradições. A psicologia da Bíblia também vê contributos aqui.

Você já pensou o quanto a alma possui relevância para a ideia de uma vida pensante humana? A repartição da alma em instâncias também é algo de uma profunda aproximação entre tradições distintas. A tripartição da alma em instinto (nefesh), emoção(ruach), razão (neshamá). Para a psicologia da Bíblia, Jacó se apaixona por Rahel, mas Lea era mais sensível. O que isso significa? Há deveres da alma e direitos da alma frente às imposições de Labão às suas duas filhas. Jacó tem de tomar uma posição e fugir das garras egoístas de Labão.

3 – Sonhos na Psicologia da Bíblia

Sonhos e visões estão presentes em todo o pensamento da psicologia da Bíblia. O que o sonho transmite? Ele elabora o dia através da noite. Seus sistemas parecem organizar o cérebro e, por consequências as ideias. Ao dormir, acordamos mais relaxados e energizados. Nosso sistema nervoso agradece o sono e nos premia com descanso.

O que a psicologia da Bíblia tem a dizer sobre os sonhos premonitórios? Você sabia que Adão sonha com Eva e Deus a cria com uma costela de Adão? Não será o sonho uma realização de um desejo? Freud pode ter razão em seu livro A Interpretação dos Sonhos. Esses elementos parecem tão presentes na psicologia da Bíblia que se faz necessário pensar sobre eles.

Jacó antes de enfrentar o anjo sonha com uma escada pela qual os anjos sobem e descem. O que esse trânsito pode significar? Jacó percebe uma união forte com Deus, reconhece que ele é o vetor dessa união numa espécie muito particular de relação (devekut) com Deus. Deus o protege com suas orações e pela persistência que tem ao ajudar sua família a escapar do indolente Labão.

E não podemos nos esquecer que José interpreta o sonho do Faraó. O Faraó sonha com das 7 vacas magras devorando as 7 vacas gordas. José é honesto em alertar a seca no Egito e alerta o Faraó que colha grãos para estocá-los. José é tanto psicólogo quanto economista em sua profissão! Observemos como a psicologia da Bíblia influencia a história do homem até hoje.

Daniel interpreta o sonho esquecido de Nabucodonosor. Ele sonhou com a árvore cortada sete vezes. E nessa árvore está representada toda a história da decadência da humanidade. Essa Revelação (itgalut) possui valor criativo em toda a psicologia da Bíblia. Da mesma forma, os níveis de consciência dos sonhos nos apresentam pontos chaves sobre a nossa consciência.

4 – Genealogias na Psicologia da Bíblia

Caravaggio – Sacrifício de Isaac (1598), Piasecka-Johnson Collection, Princeton, New Jersey

A psicologia da Bíblia trata de genealogias. As famílias são importantes sempre. Sem as famílias os aspectos das tradições não fazem sentido. Em uma família temos costumes e modos de pensar. Toda a família é assim e isso aparece na psicologia da Bíblia com força.

Você pensou sobre o porquê nos envolvemos com o passado da humanidade quando nos voltamos ao sagrado? Parece que no passado reside uma parte importante da vida consciente, está nossa origem mais sensível sobre quem somos. A busca do passado é tão crucial para o ser humano que ele necessita revisitá-lo inúmeras vezes durante a vida. A psicologia da Bíblia está presente aqui.

São mensagens assim que encontramos na vida de Abraão. Ele sai de Ur na terra dos caldeus e segue com uma ordem dada por Deus de criar uma numerosa família em outro lugar muito a oeste. Lá nasce Ismael, fruto de seu relacionamento com a escrava Hagar e Isaac fruto de seu relacionamento com Sara. Com o tempo Ismael e Isaac acabam brigando e Abraão decide afastar os irmãos. Ismael vai para o sul, onde hoje é a cidade de Acaba na Jordânia. Eis a família ismaelita ou o povo árabe tão cara ao nosso curso de Psicologia da Bíblia. 

Já Isaac permanece em Jerusalém e será imolado em um antigo ritual para aplacar a ira dos deuses canaanitas. Entretanto, na hora do sacrifício o anjo Gabriel chega e pede que ao invés da morte de Isaac que Abraão mate um carneiro em seu lugar. Essa troca é o começo de uma ética que impede o assassinato humano. Inicia aqui uma ética ainda hoje validada pela humanidade em relação a preservação da vida humana. Os aspectos disso recaem na forma em que a psicologia da Bíblia é fundamental para nós.

Esse aspecto genealógico permeia a criação da psicologia moderna. Nós encontramos o trabalho de Freud e de Jung como uma espécie de descendência e de uma herança entre eles. Jung lê Freud e se influencia por ele, porém, Freud também realiza o mesmo caminho ao receber muito da influência de Jung em seu trabalho. Como é importante isso para o desenvolvimento da psicologia da Bíblia até os dias de hoje!

5 – Gênesis na Psicologia da Bíblia

Adão e Eva no Paraíso
Adão e Eva no Paraíso

Peter Paul Rubens e Jan Brueghel o Velho – The Garden of Eden with the Fall of Man or The Earthly Paradise with the Fall of Adam and Eve (ca. 1615), MauritshuisThe Hague.

O primeiro versículo da Torá (Bereshit), o começo do Velho Testamento, já é por demais psicológico. A psicologia da Bíblia emana dele com força, Vejamos abaixo:

Bereshit raba Elohim et ha-shamaim ve-erets.

No começo, Deus criou o céu e a terra.

Curioso Deus criar o primeiro versículo com a letra B. A letra B é a letra que começa a palavra bênção (bracha, em hebraico). Há maior bênção do que estarmos vivos? Deus parece começar o mundo já abençoando sua criação, pois, ele mesmo “viu que era bom” (Gênesis 1:31).

O pecado de Adão ao comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, também mostrou o quanto é importante conhecer limites, mas também as dificuldades do homem com eles. É da natureza humana querer romper um limite para ver qual é o seu limite. Isso não quer dizer que o homem deve romper o seu limite sem um propósito (kavaná) adequado. É pelo propósito adequado que ele deve aprender e esse aprendizado é uma bênção de Deus.

O corpo de Adão é assim marcado por diferentes emanações de Deus, visto que ele é imagem e semelhança do Criador.  Ele criou as esferas (sefirot) como reflexo do que Adão deve fazer para se aproximar de Deus novamente. O amor e o temor a Deus são elementos fundamentais presentes na psicologia da Bíblia.

6 – O êxodo na Psicologia da Bíblia

Como o êxodo do Egito possui significados para a psicologia da Bíblia? O êxodo é um movimento que fazemos às vezes quando a vida se torna difícil. Por que temos de fugir de onde estamos? Essa reação exige uma mudança, uma transformação na base de como estamos acomodados. Há um movimento que nos impele em direção ao futuro.

Moisés deve levar o povo hebreu para a terra prometida, Israel, a região de Canaã e arredores. Ele tem de fazer isso e deve vencer seus medos. Ao sair do Egito o Faraó fará de tudo para ele permanecer lá com os hebreus. Eles devem permanecer mesmo que sejam maltratados. Moisés pede a Deus que faça um milagre, mas Deus coloca a fé de Moisés a prova.

O preço da saída do Egito é ajudar o povo a perder o medo, dar coragem a ele, com a entrega das leis. Por que a religião (dat) surge na história da humanidade através de leis? O que a religião (dat) e o conhecimento (daat) possuem de semelhança? Moisés é conhecido por sua ira diante ao embrutecimento do povo judeu por não querer chegar a Israel e preferirem permanecer no Egito.

Sigmund Freud escreve O Moisés e o Monoteísmo para pensar os dois momentos de Moisés. Um em que ele descobre ser judeu e outro que uma vez sendo judeu ele revela as tábuas e o caminho da religião. Contudo, na ideia de Freud, Moisés não seria judeu, mas sim um medianita, criado como um e que só após se reconheceria como judeu por ver a dor do povo. Freud traz elementos importantes para pensarmos o que é a assimilação do povo judeu sem deixar de nos provocar com os elementos da psicanálise naquilo que ela nos exige pensar sobre a psicologia da Bíblia.

7 – Profetas na Psicologia da Bíblia

Os profetas e o povo de Israel possuem uma troca muito profunda diante à psicologia da Bíblia. Você sabe por que há profetas? Os profetas mostram uma mensagem importante que Deus reservou a eles sua transmissão. Eles devem dizê-las aos homens, mas sabem que os sacerdotes terão inveja. Esse sentimento de inveja é altamente importante para os desafios a todo aquele que se aproxima da psicologia da Bíblia.

Teria sido por inveja que todos os profetas da Bíblia foram mortos? A história de Daniel é permeada de grandes revelações que ele faz ao Rei Nabucodonosor II sobre seus sonhos, mas não podemos deixar de observar a vigilância de Daniel a Deus, cuja dedicação se negava a cultuar os deuses babilônicos (baalim). O Rei, insatisfeito com isso, o joga em uma cova com leões, mas por ser fiel a Ele, Daniel é salvo.

Essa sensação milagrosa de ser salvo aparece fortemente na obra de Viktor Frankl. Ele foi levado para Auschwitz e lá sobrevive por um milagre. Todo o seu trabalho é uma busca pelo sentido da vida e, por ser judeu, também parece ser uma resposta aos antigos profetas do Velho Testamento. Eis um elemento importante da psicologia da Bíblia nos dias atuais.

8 – Renascimento na Psicologia da Bíblia

Qual é o significado do renascimento diante às contribuições da psicologia da Bíblia? Um profeta que fazemos menção é Jonas. Ele recebe a missão de pregar a palavra de Deus em Nínive, mas se nega a fazê-lo, fugindo em um barco. Os marujos ao perceberem que a tempestade ficava cada vez mais forte jogam Jonas ao mar. Ele é engolido por um grande peixe (simbolismo da ressurreição) e fica três dias na barriga dele. Esse período não é por acaso e possui forte significado espiritual.

Jonas é aquele que desconfia de Deus, mesmo quando faz o que lhe é solicitado. Como isso acontece conosco em nossos pensamentos! Podemos ter certeza racional de que estamos fazendo o “correto”, mas sem a indicação de nosso coração, nos sentiremos com medo e perdidos, quase abandonados. Essa relação aparece frequência na vida humana, quando a conexão (devekut) precisa de realização, mas o ser humano mesmo racionalmente não consegue sentir. A presente psicologia da Bíblia também é uma forma de refletir esse tipo de situação.

Vemos também com o profeta Jó a disputa com o opositor (shatan). Jó pede a Deus que termine com as desgraças de sua vida, pois shatan destruíra tudo. Jó não deixa de confessar sua vida à Deus e dessa confissão vemos que shatan perde a grande disputa pela alma dele.

Não menos importante é a resposta que Deus parece dar a Jó com a figura de Cristo. Cristo é considerado um novo nascimento, o nascimento de uma nova aliança (brit hadashá). A necessidade de pensar a figura de Cristo no Novo Testamento é como se fosse uma resposta dada a Jó, pois, Deus silencia diante à dor de Cristo na cruz e esse fato parece dar vazão aos sentimentos pungentes de Jó.

Não podemos esquecer o famoso caminho para Damasco de Paulo: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”, em que Cristo se mostra ali para despertar em Paulo a piedade. Será que o cristianismo revela ou oculta a verdade da Bíblia? Eis que nosso curso nos premia com perguntas e alternativas para pensarmos os acontecimentos pela psicologia da Bíblia.

Considerações Finais

A psicologia da Bíblia é um ramo importante de estudos tanto clássicos como modernos. Nós levamos questões tanto históricas quanto místicas das diferentes tradições para que assim possamos fazer uma leitura elaborada e sólida da Bíblia. Ler a Bíblia foi, é e será sempre uma fonte para os mais importantes conhecimentos da humanidade.

O curso de Introdução à Psicologia da Bíblica é o único a apresentar esses modelos com uma visão abrangente e inquiridora, a qual visa trazer curiosidade e cada vez mais uma melhor contínua dos envolvidos. Por essa razão, começamos com oito horas iniciais, mas temos intenção de expandir cada vez mais alguns de seus conhecimentos presentes na psicologia da Bíblia para um contínuo de estudos avançados.

A psicologia da Bíblia é uma oportunidade de conhecermos os principais símbolos da Bíblia e vermos como reagimos a eles dentro de nossa tradição. Esse trabalho também é reparador das dores e angústias que nos atam e impedem de olharmos os próximos passos de nossa vida. Para tanto a psicologia da Bíblia é uma maneira de traduzir sentimentos e pensamentos para uma linguagem que possamos ter acesso a nossa sabedoria.

Referências:

ALTER, Robert. A arte da narrativa bíblica. Tradução de Vera Ribeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

BÍBLIA Hebraica. Tradução de Jairo Fridlin, David Gorodovits. São Paulo: Sêfer, 2006.

BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2024.

BONDER, Nilton. A Alma Imoral. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: a essência das religiões. Tradução de Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 2018.

FREUD, Sigmund. O homem Moisés e a religião monoteísta. Tradução de Renato Zwick. Porto Alegre: L&PM, 2013.

FRANKL, Viktor Emil. Em Busca de Sentido: um psicólogo no campo de concentração. Tradução de Walter Schlupp, Carlos Aveline. Petrópolis/São Leopoldo: Vozes/Sinodal, 1991.

HALEVI, Z’ev ben Shimon. Cabala e Psicologia. Tradução de Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Siciliano, 1990.

JUNG, Carl Gustav. Resposta a Jó. In: Obras completas de C. G. Jung, Vol. 11/4. Tradução de Pe. Dom Mateus Ramalho. Petrópolis: Vozes, 2012.

KETZER, Estevan de Negreiros. Moisés e a máquina do tempo de Freud. Tempo psicanalítico, Rio de Janeiro, v. 51, n. 1, p. 185-210, jun.  2019.

LIADI, Rabi Shneor Zalman de. Likutei Amarim Tanya. Tradução de Eliahu Wasserman. Rio de Janeiro: Editora Beit Lubavitch, 2013.

SIDUR. Org. e ed. Jairo Fridlin. São Paulo: Sefer, 1997.

STERN, Daniel. O Novo Testamento Judaico. Tradução de Rogério Portella. São Paulo: Editora Vida, 2008.

TORÁ VIVA. Org. trad. hebr. Rabino Aryeh Kaplan. Tradução de Adolpho Wasserman. São Paulo: Maayanot, 2012.

Autor: Estevan Ketzer

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